Macumba

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segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Determinismo


Determinismo Estóico.



1. Introdução com objetivo da exposição.

2. Acepção de determinismo dos estóicos até a física de Einstein.

3.  Determinismo X Subjetivismo.

4. Conclusão com opinião do aluno.



1. Introdução com objetivo da exposição.

O presente trabalho se destina a abordar um dos pontos mais estudados dos estóicos, seja pela sua importância para a cultura ou ciências modernas, seja porque tal tema é tido como o ponto mais polêmico na leitura desta escola, porquanto mesmo sendo deterministas eles se ocuparam de doutrinas éticas atentando às possibilidades de decisões melhores ou piores com potencial para consequencias com os mesmo extremos.

Também há de se registrar que houve divergência dentro da escola no que tange ao absolutismo do determinismo ou não, ou seja, se haveria algo que o homem, como entidade dotada de autonomia perante o mundo, poderia fazer que alterasse o que já estava escrito para acontecer antes do nascimento para toda a vida.

Então, o presente trabalho se destina a tentar harmonizar essas aparentes contradições.



2. Acepção de determinismo dos estóicos até a física de Einstein.



Entender que o determinismo permeia a vida é acreditar que o tempo é um limite meramente psicológico do futuro, ou seja, tudo que ainda acontecerá já é previsível desde o antes do agora. Outra forma de conceituá-lo é excluindo a possibilidade de mudança de destino. Também é comum definí-lo em oposição ao livre arbítrio porquanto se todos os acontecimentos já estão encadeados segundo uma força incompreensível/misteriosa então vedada está a possibilidade do indivíduo tomar decisões próprias. Esta última definição é comum, mas há um pequeno esclarecimento a ser feito, pois mesmo adotando o determinismo é possível que haja o livre arbítrio, ou seja, entendido como vontade individual de mudança; mas nesse caso todas as escolhas da vida de uma pessoa já teriam sido por ela tomadas antes do início, quiça nascimento, concepção ou até a separação do espematozóide dentro do corpo do pai. Então o transcurso da vida ou cada momento seria uma forma ou oportunidade de compreender as escolhas que já foram feitas.

Chegando a tempos mais recentes, um renomado gênio também se ateve a estudar o determinismo. Einstein defendeu que o tempo era um limite de compreensão humana, ou em outras palavras, o futuro já está escrito, pois o tempo é relativo a percepção humana, mais extenso se fosse esticado. A partir desta ideia dedicou sua vida a decifrar a equação do todo, aquela que explicaria como o mundo é. Mas ele morreu sem sucesso em tal empreitada. Vale a seguinte citação:

“Ele via a mecânica quântica de hoje como um estágio intermediário entre a física clássica tradicional e uma “física do futuro” ainda completamente desconhecida, baseada na teoria da relatividade geral, na qual os conceitos de realidade física e determinismo voltariam à tona.”. [1]



3.  Determinismo X Subjetivismo.



O determinismo em nossa sociedade contemporânea é comumente associado ao oposto do conceito católico de livre arbítrio. Tal ideia significa que as pessoas fazem suas próprias escolhas, sendo que o catolicismo ou em geral as religiões monoteístas explicam que deus deu este poder a cada humano para que seja por ele exercido da melhor forma possível. Mas, abstraindo a função religiosa de delegação divina temos que a compreensão do livre arbítrio está vinculada a acepção do subjetivismo, ou seja, que o homem é capaz de impor sua vontade perante o mundo, cosmos ou sociedade.

Vejamos, o determinismo é a ordem dos acontecimentos dentro de toda uma vida, a maneira como a eternidade se apresentaria ao momento. Daí resta a primeira dúvida: a vida é sempre a mesma, mas pode ser alterada e a partir daí fica tudo diferente, ou cada evento é independente em relação ao evento anterior?

No primeiro caso, teríamos, quiça, uma espécie de eterno retorno, ou em outras palavras, viveríamos em ciclos previsíveis de acontecimentos que nada mais são a forma com que a nossa vontade se expressa. Então mantida a vontade o ciclo permanece fechado, ou seja, a vida da pessoa significa um filme cuja a explicação pode ser de plano dada, algo como: tudo que aconteceu em sua vida foi porque ele, no fundo de sua alma, em seu desejo mais íntimo, queria tal coisa ou esperava tal coisa da vida.

Mas, admitida a hipótese de mudar a sua vontade, o homem sairia do anel de acontecimentos e entraria em outro? Em outras palavras, haveria determinismo ou previsibilidade até que o homem fosse capaz de alcançar certo grau de compreensão da sua vontade. Neste momento ele teria o poder de transmudar sua a realidade para outra. Daí surge uma dúvida: a novel realidade também seria determinista? sim, mas tal determinismo só se definirá no momento de entrada no novo anel, da maneira que para quem estiver no novel anel não entrará no campo de ação do anel anterior e vice-versa, sendo, portanto, uma singularidade o novo ambiente. Mas será uma singularidade em relação ao mundo anterior, mas não em relação a seu próprio mundo, onde também haverá previsibilidade intrínseca. Aliás, em termos avançados de compreensão do determinismo, a realidade passa a ser um servidor do dono da vontade. É curioso como existe um desejo natural do homem que sua imagem seja respeitada por todos, pois para quem avança muito na compreensão de si próprio tal desejo é suplantado por um ímpeto de compatibilidade com os acontecimentos. É como o louco que superou sua loucura, pois como sua vontade é livre em relação a vontade do meio social quando ele pretende conformar a realidade ele não esbarra no susto social, pois o meio não alcança uma resposta a ele com uma velocidade apta a opor contenção.

Na segunda hipótese, os eventos seriam independentes entre si de maneira que cada acontecimento seria singular em relação ao anterior. Tal hipótese pode ser descartada, pois o modo de pensar humano é pautado pelos instintos e também experiência. No primeiro caso são manifestações imanentes a condição do homem de integrante da natureza. Já no segundo caso trata-se do conhecimento de causas e resultados que são apreendidos desde o nascimento. Em ambas as situações o cérebro humano não se desvencilha do passado, portanto, hipótese que desconsidere o passado como orientador do futuro pode ser de plano desconsiderada por atentar contra a percepção humana.

Somente a título de argumentação, caso se queira dar significado a algo transcendental fico com a seguinte afirmação de Tagore oposta a Einstein em um debate: “Se existir alguma verdade completamente independente da humanidade, então para nós ela é completamente não-existente.”.[2]

Einstein discordou pois para ele o cérebro humano é impotente perante a natureza, ideia que expõe toda a sua crença determinista, não deixando espaço para livre arbítrio, subjetivismo.

Ouso discordar do gênio. A meu ver tal crença é muito ligada as ideias de algumas crenças culturais/religiosas, pois sofrem do entendimento de que a finalidade das ações é a base das atitudes humanas, visão que não sobrevive se considerado que o homem é a medida de suas atos. Em outras palavras, ainda que o mundo esteja em constante movimento, me parece que de nada adianta ter sempre um objetivo, ou fim em mente, pelo contrário a busca deve ser a adequação ao movimento, com menos atenção em resultados.

Em suma, esse tema vai e volta várias vezes, para sempre desaguar na principal questão: Não importa se o homem acredita em determinismo, subjetivismo ou se preocupa com ética, pois o fato é que o mundo é movimento e ante essa condição o homem deve dar uma resposta. E tirado o véu das questões superficiais, a resposta será sempre a mesma, independentemente da crença: a luta pela sobrevivência.

Os Estóicos, possivelmente, foram os únicos filósofos antigos que esboçaram a hipótese de uma energia interna capaz, por si só, de transmudar o que acontece. E alcançaram esse debate enquanto aprofundavam seus estudos sobre o determinismo, pelo que não é possível dizer se o que eles entendiam por individualidade é a mesma ideia que a psicologia. No entanto, creio posso afirmar que se a ideia for a mesma a diferenciação reside que a psicologia analítica ou junguiana segue a linha de que toda a realidade tem como motor primário a mente do observador. Neste aspecto, Jung e Nietzsche foram uníssonos em tratar a vontade como causa dos acontecimentos. Pelo outro lado, o motor primário dos estóicos não se localizaria totalmente na mente do observador. Acredito que se apresentamos os estudos de Jung aos estóicos e os instássemos a se manifestar sobre a individualidade do homem indagando-lhes se parte do motor primário estaria na mente do observador para justificar a tal da individualidade ante o determinismo; a resposta seria que não, pois o motor primário é Deus e a individualidade nada mais significaria que o poder do observador de influenciar o motor primário.

3. Conclusão com opinião do aluno.



O determinismo é uma realidade. Se esse mundo teve um início já interagia com seu fim. Mas a questão que fica é porque não é incomum as pessoas que creem no determinismo apresentarem uma individualidade imponente perante o mundo? Essa não passa de uma aparente contradição, pois entre o desenrolar dos eventos existem choques entre as pessoas e esses contatos imprimem as individualidades. Então, o estudo da ética é compatível com o determinismo, pois ainda que o futuro já esteja escrito o presente não se apaga e como vivemos nele devemos enfrentar a realidade tal como ela é.

A isto acresça a possibilidade de diakomesis, sistema finito que deus periodicamente gera e destrói por atividade imanente,[3].

Penso que o diakomesis pode ser a troca de vontade, conforme antes descrito, aquela em que o determinismo/previsibilidade dentro do sistema é trocado por outro. Somente divirjo do estoicismo quando se refere a deus como algo indeterminado, pois quem muda seu sistema é o próprio homem. Desta maneira, quanto mais evoluído no caminho da transcendência o homem for menos interferência no sistema ele causará, pois se o sistema não se adequar naturalmente a ele, ele trocará o brinquedo.

Pelo visto, a única constante do mundo é a vontade do homem de conformar a realidade a si próprio. Se assim for, a única ética que se pode ter é de apagar as dependências do passado, de maneira que a conformação se dê no caminho da autoafirmação. As principais técnicas para isto são se associar aos seus afetos sem intermediários, pois terceiros apoiam a cegueira da realidade, enquanto ofuscam a alteridade; e não ter medo de rejeição, pois rejeitar é um direito do próximo; sendo que pela mão inversa não ter medo de rejeitar quem não for seu afeto.



Bibliografia:



NIESTZCHE, Friedrich, Genealogia da Moral, Companhia de Bolso.

NIESTZCHE, Friedrich, Vontade de Potência, Editora Vozes.

EINSTEIN, os 100 anos da Teoria da Relatividade, Editora Campus.

JUNG, Carl Gustav, O Livro Vermelho, Editora Vozes.

VASCONCELOS, Ana, Manual Compacto de Filosofia, Editora Rideel.

SÊNECA, Sobre a brevidade da viva, L&PM Pocket.

OS ESTOICOS, editora Odysseus, organizador Brad Inwood.

LAERTIOS, Diôgenes, Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres, Editora UNB.





[1] Einstein, página 95.
[2] Einstein, página 100.
[3] Os Estóicos, página 411.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Cálicles X Socrates.

A psique no diálogo Górgias.
1. Introdução com objetivo da exposição.
2. Intercomunicação sistêmica na Grécia antiga.
3. Heráclito.
4. Cálicles X Sócrates.
5. Conclusão com opinião do aluno.


1. Introdução com objetivo da exposição.
Academicamente há contundente discussão sobre que limites a filosofia grega impôs como legado e se esta herança já teria sido ultrapassada por novos filósofos ou outras áreas de conhecimento.
Um dos símbolos mais marcantes deste ponto foi Hegel. Ele ficou bastante conhecido tanto pela sua dialética por também se auto intitular o marco final da filosofia iniciada na Grécia antiga.
Entretanto, o presente trabalho tomará como premissa conceitos de Nietzsche sobre a autoafirmação do ser e que hoje são tratados como área dentro da psicologia.
2. Intercomunicação sistêmica na Grécia antiga
A Grécia antiga consubstanciou um peculiar momento de plena integração entre as pessoas, o que fica claro pelos seguintes relatos históricos:
 Julgamentos em que os juízes eram retirados da própria sociedade e em grande número.
 O povo grego cultuava seus deuses através de contos urbanos, não havendo uma pessoa ou instituição que impusesse isto.
 Coerência entre o estilo de vida do grego e o que eles acreditavam.
Pelo outro lado, calcados na plena integração do povo entre si suas insatisfações eram projetadas ante quem não fosse conterrâneo, donde as guerras com as cidades próximas eram a exteriorização deste sentimento.
3. Heráclito
Talvez Heráclito tenha sido o filósofo grego que mais se aproximou da capacidade de identificar a própria psique, valendo citar o seguinte fragmento:
“Só uma coisa é sábia: conhecer o pensamento que governa tudo através de tudo”
A unicidade foi levantada por alguns filósofos gregos, conforme citado por Aristóteles na publicação metafísica.
Ainda que concebê-la não indique o reconhecimento da psique, denota compreensão sobre uma dialética mais abrangente a qual há de considerar o próprio ser como parte do todo.
Mas Heráclito há que se destacar por não ter provocado embates “inquisitoriais” como Sócrates ou Protágoras causaram, culminando com acusações que lhes foram feitas.
Heráclito preferiu se afastar do estilo de vida que não concordava ao invés de criticá-lo. Esta é uma postura que indica certa independência do meio social o que expõe uma psique mais identificada pelo seu dono.
Portanto, Heráclito teria sido o filósofo mais visionário de sua época ! Mas, pelo outro lado, morrer como um insano não denota força interior trabalhada.
Neste ponto, as circunstâncias da morte, Sócrates teria tido uma atitude lúcida até o final, conforme o diálogo Fédon.
4. Cálicles X Sócrates.
O diálogo Górgias na parte da conversa entre Cálicles e Sócrates mostrou um raro momento de libertação do grego da forte imanência a sua cidade, valendo a seguinte leitura:
“Cálicles — Já o disse: os que entendem dos negócios públicos e são corajosos. A esses é que compete governar as cidades, mandando a justiça que tenham mais do que os outros, os governantes mais do que os governados.
Sócrates — E com relação a eles próprios, amigo: são governantes ou governados?
Cálicles — Que queres dizer com isso?
Sócrates — Digo que cada um deve comandar a si mesmo. Ou não haverá necessidade de ninguém comandar-se a si mesmo, mas apenas aos outros?
Cálicles — Que entendes por comandar a si mesmo?”
Como se vê, este é um raro trecho revelador de um raciocínio embrionário que justifique a crença de separação entre o ser e o ambiente que vive. Ou mais precisamente dizendo, uma crença que reconheça a possibilidade que mudanças internas são aptas a causar reflexos no meio.
É que os gregos não acreditavam em uma força interior que haveria de ser resolvida por si só. Para eles todas as batalhas teriam de ser travadas na sociedade.
Este embate esbarrou nos limites da imanência e chegaram a “chutar as paredes” de seus contornos como quem quer enxergar mais adiante. No entanto, nem o filósofo Sócrates ou seu alter ego sofista Cálicles demonstraram compreensão da existência de uma própria força interior (psique).
É o que transparece da resposta do filósofo:
“Sócrates — Não se trata de nada abstruso; a esse respeito penso como todo o mundo: ser temperante e dono de si mesmo, e dominar em si próprio os prazeres e os apetites.
Cálicles — Como és engraçadinho! Aos simplórios é que dás o nome de temperantes?
Sócrates — Como assim? Não há quem não perceba que não foi isso que eu disse.”
“Ser dono de si mesmo” é uma frase que poderia remeter ao homem que se autoafirma em sua existência, segundos conceitos de Nietzsche. Mas não foi isto que Sócrates quis dizer. Seu raciocínio não caminha no sentido do desenvolvimento da psique, ou seja, de desabrochar o inconsciente.
Sócrates defendeu que autocontrole é manter o hedonismo domado, ou seja, não alcançou o desabrochar da psique.
Por sua vez segue transcrição da passagem mais bela que se tem registro dos textos antigos:
Cálicles — Foi isso, precisamente, Sócrates. Pois como poderá ser feliz quem for escravo do que quer que seja? O belo e justo por natureza, digo-o sem o menor constrangimento, é que quem quiser viver de verdade, longe de reprimir os apetites, terá de permitir que se expandam quanto possível, e quando se encontrarem no auge, ser capaz de alimentá-los com denodo e inteligência e de satisfazer a todos eles à medida que se forem manifestando. Mas isso, justamente, segundo penso, é que não é para toda a gente; eis porque a maioria dos homens censura as pessoas capazes de assim viver, por se envergonharem da própria debilidade, que procuram esconder, e qualificam de feia a intemperança, para escravizarem, conforme disse há pouco, as pessoas bem-dotadas por natureza. Sendo incapazes de satisfazerem suficientemente suas paixões, elogiam a temperança e a justiça com base em sua própria pusilanimidade. Pois para os que nasceram filhos de reis, ou que por natureza sejam capazes de conquistar algum império ou o poder e qualquer domínio: haverá nada mais vergonhoso e prejudicial do que a temperança para semelhantes indivíduos? Tendo a possibilidade de gozar de todos os bens, sem que ninguém se lhes atravesse no caminho, iriam impor a si mesmos um déspota, a saber, a lei da maioria, e o falatório dos outros, e as censuras? Quão infelizes não se tornariam, pelo fato mesmo da beleza da justiça e da temperança, se não pudessem dar mais aos amigos do que aos inimigos, e isso apesar de serem donos de suas próprias cidades? O certo, Sócrates, é que a verdade que tu presumes procurar é simplesmente isto: o luxo, a intemperança e a liberdade, quando devidamente amparados, é que constituem ao certo a virtude e a felicidade. Tudo o mais, todos esses enfeites e convenções contrárias à natureza, não passam de palavrório sem valor.”.


Infelizmente, a contestação que se seguiu de Sócrates foi evasiva.
Ao que pareceu deste discurso é que o alter ego foi além da “locomotiva”.
A primeira parte do parágrafo é a exata premissa de quem quer desenvolver a psique: “que quem quiser viver ao máximo, longe de reprimir os apetites, terá de permitir que se expandam quanto possível, e quando se encontrarem no auge, ser capaz de alimentá-los com denodo e inteligência e de satisfazer a todos eles à medida que se forem manifestando.”.
Esse é o caminho para a autoafirmação através de potencializar a força interior.
Mas, é uma pena que não foi isto que Cálicles quis dizer. Sua premissa é certeira, mas sua conclusão gira em torno da manipulação do ambiente em seu favor. Ou seja, Cálicles pretende ser livre relativamente ao ambiente que vive.
Enfim, ele quer dominar a sociedade segundo sua conveniência. Não pretende desabrochar sua força interior para que através do conhecimento dela expandir sua sensibilidade em favor de sua liberdade.
Aqui está clara a diferença entre a filosofia antiga e a contemporânea:
A liberdade ao grego é relativa, ou seja, não ser dominado por outros homens, e se for o caso impor a sua força quando necessário ou prazeroso.
Já a liberdade na filosofia após o esboço da ética de Spinoza com a conclusão de Niesztche sobre a moral é outra: desabrochar a psique para através de seu autocontrole/sensibilidade se alcançar a absoluta liberdade/felicidade.
Como se vê, o grego era cego além dos limites da imanência.
Fazendo uma comparação do grego antigo com o homem moderno, é viável se dizer que o autoconhecimento de um grego perante a realidade não passaria de um feto perante a sua mãe, ou seja, totalmente imanente ao ambiente e com todos os sinais da autêntica liberdade indiretos e imprecisos.
Por fim, acerca do estágio ideal apontado por Cálicles: Virtude e felicidade, baseados no hedonismo, luxo e liberdade; são expressões de uma busca que em última análise não passam de valores efêmeros, conforme foi descrito por Sócrates em longas falas no diálogo sob análise.
Sentimentos de integração ou prazer, ainda que admitidos como objeto da vida não passam de consequências cujas causas não são passíveis de debates ante seu caráter pessoal, ou seja, diferente a cada indivíduo.
Mesmo que se admitisse uma vida hedonista, cercada de amor, como modelo, os caminhos para se atingi-la seriam diferentes para cada ser, razão pela qual qualquer tentativa de defini-la não se insere no campo do debate das ideias, por serem questões resolvidas no caso concreto e em caráter individual, não valendo para uma pessoa a causa que causou prazer a outrem.
Talvez, a sensação mais próxima de hedonismo coletivo seria o uso de drogas, mas, como se sabe, mesmo quando se usa drogas que causam sensação de prazer há de se ter temperança, para não se acabar em uma clínica e ser privado delas.
Em suma, temperança e hedonismo são duas faces da mesma moeda, como a vontade de comer e a necessidade de parar e refletir até que ponto a sensação causada é agradável.
Passando desde ponto avancemos até o conceito de política, também tratado neste diálogo:
“Sócrates — Creio ser um dos poucos atenienses, para não dizer o único, que se dedica à verdadeira arte política, e que ninguém mais, senão eu, presentemente a pratica. Visto nunca entabular conversação com qualquer pessoa com o intuito de adquirir-lhe as boas graças e só ter em mira o que é mais útil, não o mais agradável...”.


Este conceito não é o da política moderna, hoje intrinsicamente ligada a arte da convivência, ou seja, conciliar os interesses pacificamente.
Sócrates expôs conceito que se insere no âmbito da filosofia, pois questionar o cotidiano é matéria afeta ao filósofo. É ele que se ocupa de questionar os acontecimentos independentemente das consequências que daí advenham.
Não é a toa que os limites do filósofo são dados pelo seu alter ego, conforme lecionou Barbara Cassin. É que por mais inteligente que alguém seja, para se dirigir ao próximo há a necessidade de comunicação.
E, para haver comunicação há a necessidade dos dialogantes estejam aptos a compreender o objeto da discussão.
5. Conclusão com opinião do aluno.
Penso que este mundo é uma espécie de teste cujo sucesso gira em torno de se destacar a psique da realidade, ou seja, reconhecer que o acontecimento é reflexo da cultura da sociedade.
Ser um notável filósofo como Niestzche não significa que as idéias que se defendam são as incorporadas internamente. Ele pode ter tido várias interpretações consistentes da realidade, mas se limitou a comunicá-las aos seus semelhantes ao invés de absorvê-las internamente as contrapondo com as raízes do inconsciente.
Como se vê, existe uma vala que separa a verdadeira dialética deste mundo:
Em um lado temos o inconsciente que é a verdadeira psique, ou força interior, do ser. Trata-se da soma de crenças que a pessoa carrega desde sua formação cerebral, aproximadamente sexto mês de gravidez segundo alguns estudos de ressonância que reconhecem atividade elétrica.
A psique é totalmente desconhecida a seu dono, e é totalmente identificada com a energia sexual. Esta se exterioriza através da vontade de se sentir vivo, a vontade de interagir com o mundo de forma sincronizada.
De outro lado temos os fenômenos, os quais são tudo o que acontece racionalmente, ou seja, as escolhas entre ficar onde se está ou se mover.
Claro é que todas as escolhas neste mundo sempre são tomadas ao estilo binário, ou seja, continuar ou sair.
Didaticamente temos:
Para a psique o código binário é: Ou lutar pela vida, pela sincronismo; ou lutar pela morte, pelo status social.
Quanto aos fenômenos, ou seja a razão dentro do ambiente externo, o código binário é: continuar no circulo de conectividade relativa (com as outras pessoas); ou sair dele.
Por exemplo: sair de um emprego. Interessante ressaltar que para efeito racional nunca se está entrando em nada.
Vejamos, quando se está desempregado, e, ainda assim, nega-se a ingressar em uma oportunidade a opção não foi em não entrar no emprego, mas sim de continuar desempregado.
Isto ocorre porque como a psique é formada com todos os seus “encantos” antes da gravidez, então, os fenômenos que vão acontecendo são reflexos do desabrochar do que está latente/escondido no inconsciente.
Em suma, se o ser não tem interesse em “entrar” num novo ambiente é porque sua psique não tinha nada a desabrochar lá.
Mas aí temos um paradoxo, se todos estão conectados a sociedade por que os seres mais evoluídos são mais independentes da vontade cultural?
O paradoxo está claro: se a realidade deriva da psique então como alguns projetam a realidade mais no ambiente externo do que outros.
Por certo, quanto menos o ser projeta sua psique nos reflexos externos menos dependente da vontade alheia também é.
A única conclusão que chego ante este emblema é que este mundo é uma mera plataforma de um sistema maior.
E, nesta plataforma o que mantém as pessoas conectadas são os compartilhamentos das mesmas obscuridades da mente.
Talvez este mundo seja um desafio para quem está nele e a vitória não resida com quem for mais forte sob o aspecto comparativo/competitivo, mas para quem seja capaz de se impor perante o próprio sistema, limitado pelo tempo/espaço.
Nesse ponto julgamentos como o de Sócrates são lembrados, pois ele se impôs não perante um indivíduo, mas perante o modo de crenças de sua época.
Ocorre que se impor perante um modo de crenças nada mais é do que ser um lutador não contra outro, mas sim um lutador contra toda a coletividade. Neste ponto fica clara a relevância de um povo tão sintonizado entre si a ponto de se integrar/levantar um questionador com a inteligência de Sócrates.
Mas Sócrates não tinha a psique evoluída internamente, ele só foi a expressão de liberdade perante uma coletividade de um determinado tempo/espaço.
A psique plenamente evoluída não faria parte deste mundo, assim como uma pessoa que não gosta de doce ignora um belo quindim.
Portanto, quanto mais evoluído se é mais trabalhada deve ser a capacidade de enxergar o próximo como entidade independente e como tal livre para sua próprias opiniões.
Enfim, analisando estas premissas só há como se chegar a duas conclusões:
1. A evolução neste mundo há de caminhar independentemente de reconhecimento de outras pessoas.
2. O relacionamento entre as pessoas sempre se resolverá em política ou luta/guerra. Política significa respeitar o próximo considerando as limitações individuais. Sob este aspecto a política seria a síntese da dialética entre a filosofia e o sofismo. É a junção da verdade com o respeito. Verdade porque quanto mais transparente se for melhor será à política. E respeito porque ser transparente não implica em mostrar o caminho para quem quer ficar estagnado.
Ser transparente é estar pleno no momento. Não é chegar a um almoço e dizer que gosta ou antipatiza com alguém só porque se pensa assim. É fazer parte do almoço e conversar com quem gosta e não puxar conversa com quem não gosta. Esta é a verdadeira política, ou a ética mediando as relações sociais.
Infelizmente a política sempre adotou o provérbio: “mantenha seus amigos pertos e seus inimigos mais perto ainda”.
Como se vê esta é uma frase platônica, porquanto projeta a psique no ambiente externo e daí a necessidade de se proteger das ameaças e se apropriar do que há de bom.
Nietzsche denominaria esta atitude de utilitária, própria da força fraca.
Política é acreditar que o próximo é capaz de alcançar seus objetivos, sejam eles quais forem.


Bibliografia:
Versão eletrônica do diálogo platônico “Górgias”
Tradução: Carlos Alberto Nunes
Créditos da digitalização: Membros do grupo de discussão Acrópolis (Filosofia)
Homepage do grupo: http://br.egroups.com/group/acropolis/.
CASSIN, Barbara. Ensaios sofísticos.
HEIDEGGER, Martin. Hegel e os Gregos.
HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Heráclito de Éfeso.
Metafísica de Aristóteles, tradução Marcelo Perine.
NIESTZCHE, Friedrich, Genealogia da Moral, Companhia de Bolso

domingo, 19 de junho de 2011

Filosofia/mitologia.

O sonho é a fonte da relação de forças.

1.       Mitologia do sonho e da “realidade”.
2.       Autodeterminação.
3.       Esquecimento, segundo Nietzsche.
4.       Relação de forças, por Nietzsche.
5.       Conclusão.

1.       Mitologia do sonho e da “realidade”.

O sonho é expressão da psique e os limites desta definição permanecem desconhecidos à ciência moderna.
Na Grécia antiga, os sonhos eram considerados mensagens dos deuses.  A incubação, ou a prática de buscar sonhos significativos, dormindo em um lugar sagrado, era popular, especialmente em cultos.
Nesses cultos, líderes gregos tentavam decifrar os sonhos por várias razões, tais como buscar curas para doenças, prever o futuro, descobrir fatos ocultos ou mesmo a busca filosófica pelo autoconhecimento.
Após a Grécia antiga, os sonhos foram muito pouco debatidos na sociedade em razão do domínio do catolicismo que preferiu relegar esse estudo a um plano irrelevante.
O sonho somente voltou a tona científica com Freud e depois Jung, os quais abordaram os sonhos não como imagens sem sentido frutos de um momento irrelevante, mas como impulsos da psique humana. E, portanto, informação que pode ser abordada visando a melhoria de vida do homem em vários aspectos.
Por fim, Joseph Campbell, antropólogo especialista em mitologia que viveu no século passado fez uma singela definição:
“sonhos são mitos particulares”; e
“mitos são sonhos coletivos”.
E também disse que toda força do ser vém de sua própria psique, razão pela qual no sonho ele é capaz de prever o futuro, situação não possível na “realidade” porquanto nela existe a necessidade de contemporaneidade dos acontecimentos, instrumento pelo qual é possível que os seres interajam como iguais, no que chamamos de sociedade.
Em suma, mito é a idéia pela qual o ser vive.
Em geral, o mito mais presente na psique é o fim, ou seja a morte, mas ela irradia mais nas pessoas mais velhas; na infância o mito principal é o reconhecimento dos pais; na adolescência é a autoafirmação sexual; na fase adulta é a capacidade de influenciar as pessoas seja através de respeito ou medo.
Em movimento paralelo a esta predominância mitológica do mundo civilizado posso citar o hedonismo.
O hedonismo (do grego hedonê, "prazer", "vontade") é uma teoria ou doutrina filosófico-moral que afirma ser o prazer o supremo bem da vida humana. Surgiu na Grécia, e importantes representantes foram Aristipo de Cirene e Epicuro. O hedonismo filosófico moderno procura fundamentar-se numa concepção mais ampla de prazer entendida como felicidade para o maior número de pessoas.
O significado do termo em linguagem comum, bastante diverso do significado original, surgiu no iluminismo e designa uma atitude de vida voltada para a busca egoísta de prazeres materiais. Com esse sentido, "hedonismo" é usado de maneira pejorativa, visto normalmente como sinal de decadência.
Aristipo de Cirene (ca. 435-335 a.C.), contemporâneo de Sócrates, é considerado o fundador do hedonismo filosófico. Ele distinguia dois estados da alma humana, o prazer (movimento suave do amor) e a dor (movimento áspero do amor). Segundo ele o prazer, independentemente da sua origem, tem sempre a mesma qualidade e o único caminho para a felicidade é a busca do prazer e a diminuição da dor. Ele afirma inclusive que o prazer corpóreo é o próprio sentido da vida.
Como se vê, para o hedonismo grego, há basicamente dois mitos, o prazer e a dor.
Já Joseph Campbell tem uma visão diferente, dizendo que a dor é a consequencia de falta de respeito com o corpo e o prazer é a consequencia do inverso. Ou seja, a dor e prazer não seriam buscas, como no hedonismo, mas consequencias de atos.
De qualquer forma, seja uma busca ou uma consequencia, em ambas as hipóteses a dor ou o prazer seriam sentimentos relacionado com algo fora do momento, e por certo mitos.
Por exemplo, o prazer do sexo é um caso emblemático, já que a fonte do prazer seria a posse do parceiro ou um simples prazer do toque?
No primeiro caso a força fraca é óbvia mediante a característica de reatividade; e no segundo seria a força forte? Talvez sim, mas nesse caso seria forçoso reconhecer que o prazer do parceiro é irrelevante e o sexo seria uma mera relação de domínio de um pelo outro, ainda que em uma situação ideal ou perfeita possamos visualizar uma espécie de domínio recíproco, ou seja, uma unidade de ações entre os parceiros tão harmônica que cada um possa se autosatisfazer mesmo ignorando o sentimento do outro.
Como mito que é o sexo podemos visualizar porque na Grécia antiga a homossexualidade era tão festejada, já que mulher era considerada um ser inferior, motivo pelo qual seria mais convidativo que um homem possuísse outro.
Aliás, o sexo é uma fonte mitológicamente tão forte quanto a morte.
Talvez a superação do hedonismo seja a presença absoluta canalizando a clarividência em um nível que o querer interno seja mais poderoso que os reflexos do próprio corpo, como o prazer.
Se isto já aconteceu contigo é porque você não é tão ingênuo quanto acredita. É que o cérebro não interpreta estímulos como contam para agente desde que nascemos, pelo contrário: é o nosso cérebro que os produz.
Você já se sentiu em um “beco sem saída”, ou seja, em algum momento de sua vida já ficou angustiado com algo e não soube como se livrar? Já reparou que quando isto acontece a solução é se esquecer que está num beco?!
E, como num passe de mágica a angústia vai embora e o labirinto se levanta... É que quando o cérebro é autorizado a superar alguma “realidade” que está em relação de forças com sua psique os limites desegradáveis simplesmente somem.
Enfim, quanto mais se luta contra o problema ou para achar uma saída para ele, mas existência ao problema se vitaliza!
Nossos sentidos são como uma bola em um jogo de futebol, ou seja, eles servem para nos deixar conectados com alguma “realidade” que acreditamos ter importância e em razão disto o envólucro da percepção sensorial é determinado no campo cerebral.
Todos os limites que temos são impostos em razão da satisfação da própria vontade. É como a fome. Se vc a tem é porque quer se apropriar de algo que lhe dará satisfação.
E, o mais “engraçado” é que a comida é o menos importante. O que mais importa é o ritual ou saciamento mitológico da fome, o qual nos é apresentado inicialmente pelo cordão umbilical, sendo esse nada mais que a exteriorização física de um ato de apropriação em um relacionamento vertical.
Servir ou ser servido não passa de um ato mitológico referente aos desejos da psique.
Por tudo isto que onde o querer interno domine, o mito de vida será a própria criação da realidade, algo típico da natureza divina presente em cada um de nós.


2.       Autodeterminação.

Nos moldes em que a filosofia plantonista descreveu existe um mundo sensível e um inteligível, sendo que o elo de ligação entre eles é o estudo da mitologia porquanto o mundo sensível envolve as sensações e a busca pela autodeterminação e o inteligível envolve as razões sistêmicas pelas quais as coisas acontecem; daí que através da delimitação do mito é possível entender, ao mesmo tempo, a razão dos atos humanos no mundo sensível e as razões dos acontecimentos do mundo inteligível.
Aqui vale clarear o que seja autodeterminação e sua implicação para as definições sobre força fraca e forte, nas lições de NIeztsche.
Para o ser que age com força fraca a autodeterminação envolve a capacidade que ele tem de se sobressair ou impor sua vontade perante seus iguais. Ou seja, a psique dele só se sente confortável quando está dominando elementos externos ao seu corpo. Esta seria uma força fraca porquanto o ser não consegue superar o mundo em que vive, ou seja, ele está aprisionado pelo ambiente e não se conhece.
Já para a força forte o ser também está aprisionado ao ambiente, mas ele é capaz de guiar sua vontade de forma ativa, ou seja, ele não está totalmente curvado aos limites do ambiente, mas está se autodeterminando internamente de uma forma tão poderosa que os limites do mundo são alterados pelos seus próprios limites. Portanto, não é uma mera força reativa, mas sim uma força ativa guiada pela intensa vontade de sinceridade e absoluto respeito a si mesmo.

3.       Esquecimento, segundo Nietzsche.

O único poder que o ser tem não é o de se auto afirmar perante terceiros, nem o de não envelhecer, nem o da riqueza, nem o do reconhecimento, nem o da memória absoluta, ou seja aquela que tudo se lembra, mas sim o de ser capaz de se esquecer porque a origem do corpo humano é o aprisionamento ou relacionamento vertical (ventre materno seguido da dependência maternal).
O ser humano que seja capaz de se esquecer estará além de qualquer carência/limite humano.
Como disse Niestzche, em a Genealogia da Moral: "Esquecer não é uma simples vis ineartiae (força inercial), como creem os superficiais, mas uma força inibidora ativa, positiva no mais rigoroso sentido, graças à qual o que é por nós experimentado, vivenciado, em nós acolhido, não penetra mais em nossa consciência ou assimilação psíquica.".
Como se vê, a fórmula da evolução/superação humana é muito simples: ser capaz de produzir psiquicamente uma força ativa tão forte quanto a força de submissão a “realidade” que se quer descartar.
Por exemplo, se você quer ser um pop star só para mostrar para a namorada que te largou o quanto virtuoso você é, poderá se “vender” para alguma gravadora ou nicho musical só para com isto atingir um status social alto que influencie ela a convergir com seu pensamento de que ela te merece.
Tudo isto seria uma confusão autocriada, pois o relacionamento amoroso não apresenta plenitude ou relevância quando gira em torno ou se mistura com aspectos sociais de reconhecimento.
A força inibidora ativa seria muito mais simples do que ter que planejamentos que envolvam terceiros ou status social, porquanto bastaria uma atividade psíquica do tipo eu valho mais do que a minha ex-namorada acha.
Quando alguém não só se preocupa em fazer bem uma coisa, mas visa ser o melhor para mostrar a sociedade, há aí algum aprisionamento, como de uma pessoa que pretender aparecer no guiness de mais rico do mundo. Tal desejo provavelmente revela alguma situação mal resolvida em relação ao pai, já que a vida profissional possui um mito intimamente ligado a autoridade, sendo esse aspecto próprio do mito paterno.
Por sua vez, as mulheres elas são uma expressão particular de mundo dos homens. Isso resta claro, no ventre materno onde é o primeiro habitat. Depois do nascimento o cordão umbilical é substituído pelo pênis e o ventre materno pela vagina.
Enfim, o texto não é sobre sexo, mas é bom saber que no útero só existe uma mulher, a mãe, o único mundo do homem; e após o nascimento as mulheres são as particularizações dos mundos dos homens, já que após nascidos os homens interagem com seus iguais.
Isto explica vários problemas psicológicos, já que quando a projeção que um homem faz de si mesmo sobre uma mulher se torna mais forte que a sua própria vontade isto pode não acabar bem.
De qualquer jeito, vale o ditado popular: vivem melhor com as mulheres os homens que sabem viver sem elas e vivem melhor as mulheres que sabem que não podem controlar o dono de um pênis.
É que o casamento pode assumir um aprisionamento tão poderoso quanto uma pseudo reafirmação da vida intrauterina, a qual está adormecida na mente de todos e se não for trabalhada através do esquecimento desembocará em limitações.

4.       Relação de forças, por Nietzsche.
Nietzsche foi o filósofo que deu nova forma a filosofia que reinou neste planeta desde Sócrates. Talvez um ou outro filósofo, como Spinoza, tenha avançado no legado da Grécia Antiga, mas foi Nietzsche quem remodelou a compreensão de mundo, a qual vigora até hoje na filosofia.
E, a relação de forças é esta nova visão de como o mundo efetivamente funciona para quem quer sentir em um campo mais autêntico do que a compreensão básica de “realidade” que os sentidos básicos oferecem.
Pela relação de forças tudo que existe está em constante tensão/conflito em razão de suas particularidades. Por exemplo, o planeta terra está em relação de forças direta com o sol; assim como uma pessoa está em relação de forças com todo que lhe cerca, parentes, amores, colegas de trabalho, vizinhos, enfim tudo que existe é corpo e todo corpo está em relação de força direta ou indireta, através da vários princípios didáticos: oposta ou convergente, potencializadora ou decadência, agregação ou dissolução.
Existe a força forte e a fraca, onde a fraca é típica de quem se auto-afirma através de alguma força reativa, ou seja, através de algum corpo externo, como um carro, ou seja, a pessoa constrói a sua identificação com a “realidade”, mediante comparação com seus iguais.
Já a força forte é ativa, ou seja, criadora. Para ela a superação da “realidade” é uma busca incessante através de um caminho em que a dependência de algo externo, e portanto, incontrolável é feita através do esquecimento do desprezível e do desnecessário em uma trilha onde a plenitude é uma constância e o querer interno é limitado somente pela própria capacidade de criação.
A força é fraca porque como sua orientação é guiada em função de reação ao ambiente, não haverá outro desemboque que não seja a decadência porquanto a força fraca/reativa só se manterá em vigor enquanto o corpo a que ela reage mantenha a intenção de reagir, como exemplo é o mentiroso que só se sustenta enquanto suas mentiras são aceitas em seu ambiente.
É que o mentiroso constrói sua psique em função de reconhecimento e nesta medida se torna dependente de quem lhe acredita. Então uma vez cessada a aceitação a decadência do mentiroso é iminente.
Não custa lembrar que quem carente é de reconhecimento está fadado a mentir, já que para saciar seu desejo deverá preencher os anseios em sua órbita os quais por certo não poderão ser atendidos somente com sinceridade.
Como se vê, a força fraca/reativa é limitada e previsível, já que seu final é certo: a decadência.
Lado outro, a força forte/ativa, enquanto atividade criadora e, portanto ilimitada é “imprevisível”, ao menos sob o aspecto de que a decadência não é sua única vala ou final, ou mais precisamente dizendo não é conhecido seu futuro.
A principal característica da força forte é a superação, atingida através da capacidade de interagir com o ambiente de forma que as limitações que o ser possui em função de seu passado de dependência sejam ultrapassadas a ponto de a criação tomar o ciclo da repetição.
Em suma, a força fraca tende a decadência certa, já a força forte pode levar a decadência ou a um novo horizonte desconhecido.
Outra característica da relação de força é o caos.
Caos é a concepção de que o mundo está em fluente mudança, através dos limites básicos da “realidade” pelos quais toda a existência perpassa para existir, quais sejam, o tempo/espaço.
Ocorre que o tempo/espaço não é exato nem dentro do nosso mundo, pois ele é moldado através da gravidade, a qual nada mais é do que a atração recíproca entre os corpos.
Como se vê, de exato nesse mundo talvez haja somente o caos, ou seja, a constante mudança da realidade, derivada da capacidade perceptiva humana.
Assim, o caos pode assumir duas características distintas, a da ordem, ou a falta dela.
No primeiro caso é a aceitação do determinismo, pelo qual a “realidade” é imutável, pois desde que o mundo começou já possuía a memória do final.
Neste caso, não haveria qualquer poder sobre o destino ou de mínima escolha, já que o futuro já estaria pronto, assim como o passado que já acontecido.
Na outra hipótese não haveria esta ordem, mas sim uma possibilidade de mudança pela qual a relação de forças seria constantemente remodelada de acordo com as alterações empreendidas pelas forças fortes/ativas.
De qualquer forma, me parece que esta distinção é meramente didática já que não faz diferença para quem está na relação de forças se seu futuro está definido ou não.
Vale reafirmar o que já dito, a única possibilidade de se livrar de um futuro certo e, portanto decadencial é através da eliminação do passado.
E, a única possibilidade de eliminar o passado é através do esquecimento.
Oportunamente, vale esclarecer que para a relação de forças não existe bem ou mal, certo ou errado, bonito ou feio, mas sim corpos que estão em relação de forças com outros corpos em razão de suas características específicas.
Em nível cósmico o que importa, ao menos de perceptível, é a densidade dos corpos, critério pelo qual a gravidade formata a “realidade”.
Em nível psíquico humano a “coisa” é mais complexa. Para a compreensão da relação de forças deve se abstrair, desde logo, padrões morais, como exemplo entre o estuprador e estuprada e assassino e assassinado.
É que a sociedade, em crimes, tende a taxar o ativo de mal e o passivo de vítima, para então nascer a força reativa, ou seja, punir o ativo/mal.
Ou em exemplo diferente abençoar o bem sucedido em contraste com o mal sucedido, tal no caso de um rico em relação ao pobre.
Tanto a benção quanto punição, ou suas intenções, seriam exteriorizações de forças reativas.
Para a relação de forças se houve um estupro ou um assassinato é porque os protagonistas carregavam em sua psique alguma característica(neste caso poderiam ser chamadas de opostos ante a violência) em que a relação de forças determinou o encontro ou atração.
Também outra forma de clara visualização da relação de forças é em comparações, pois se a psique perpassa/aceita uma qualidade que lhe é própria é porque está em relação de força com outro corpo, como na riqueza/ pobreza, ou comando/submissão.
Enfim, amizade, inimizade, amor, ódio são cartazes óbvios de relação de forças direta.
Já em uma relação de força indireta temos situações que envolvem o cotidiano do ser de maneira a contribuir ou atrapalhar intenções dele, como o trânsito.
Em suma, para Nietzsche tudo que existe, seja de natureza psíquica ou com massa, pode ser chamado de corpo; e todo corpo está em relação de força direta ou indireta com outro corpo.
5.       Conclusão

Ao contrário do legado do Nietzsche, me parece que o sonho não integra a relação de forças porque nele a criação da realidade é feita pelo próprio sonhador.
Então, o sonhador tem a liberdade para criar sem precisar respeitar qualquer outra força, sendo sua força “absoluta”.
Lado outro, a mitologia do sonho utiliza as mesmas vivências/mitos da “realidade”.
Daí parece surgir uma indagação: Qual é a origem dos mitos: o sonho ou a realidade?
Em outras palavras, o ser possui os mitos porque os conheceu no sonho ou na “realidade”?
Em suma, ou o ser sonha e quando acorda vivencia a “realidade” com os limites do sonho; ou os sonhos são limitados pelos contatos que o ser teve quando acordado?
Não há como conceber que no sonho haja o destacamento da “realidade” e vice-versa e ainda assim eles coexistam. Daí, por certo a limitação mitológica vém de um para outro.
Me parece que o sonho é quem define as relações de forças, sendo, assim, sua fonte, pelas seguintes razões:
·         nos sonhos o tempo e espaço são menos relevantes que na “realidade”;
·         no sonho o ser está mais intimo de sua própria essência (ante sua solidão) e portanto de seu querer. E, como o que trouxe o ser ao mundo foi o querer, o mesmo é a origem/sustento de tudo!
·         no sono REM, aquele em que há o sonho, a atividade cerebral é equivalente a de uma pessoa acordada e em intenso trabalho intelectual. Outra característica do sono REM é que a pessoa fica distante dos estímulos externos.
Se no sonho o cérebro humano está focalizado em trabalhar para seu dono e quando acordado seu foco se volta muito mais para o ambiente social, então claro é que se o gasto mental em ambas as situações é equivalente então o sonho é mais confiável que a “realidade”, já que o sonhador está absolutamente conectado com sua essência.
Enfim, à divindade caberia a capacidade de sonhar acordado, ou seja criar a realidade sem limitação do passado e consequentemente do futuro.
Fora disto, tudo significa paradoxos, ou seja “realidades” coexistentes determinadas pelo conflito entre os pensamentos do mundo, nada mais do que a relação de forças idealizada por Nietsche.
Pois bem, participar desse mecanismo de interação é como a parábola de se vender ao diabo, considerando que quem está nesse mundo é porque anuiu com suas regras, ou pelo menos chegou aqui por vontade própria.
E, idéia de mundo implica na concepção que a corrupção é a única solução, pois a autoafirmação é sempre compensada por algum desejo de superioridade frente aos iguais, ainda que esse desejo seja totalmente interno e sem qualquer coerência com a realidade.
Quanto a etimologia, a palavra corrupção serve à compreensão de uma ruptura com ordem estabelecida, uma vez que corruptus advém da aglutinação entre uma partícula de adesão “co” (ao mesmo tempo) e “ruptus” (romper, quebrar), indicando um antagonismo entre uma ordem estabelecida e uma conduta que a viole, a quebre, a desnature. .
Uma primeira conclusão advém daí: onde existe coletividade, pluralidade e divergência, provável e possivelmente existirá corrupção, pois essa nada mais é do que elemento integrante de um sistema social que comporta a diversidade.

Ou seja, quem faz juízo de valor entre um bem superior e um inferior é porque tentará se apropriar do bem superior através da corrupção.
Bem superior não implica em gosto ou opções pessoais, mas em hierarquia, como exemplo, a acepção da diversidade que gera a corrupção é aquela de quem prefere a primeira classe de uma avião do que a econòmica, ou de quem prefere uma roupa de marca porque garante mais status.
Por sua vez, opções pessoais são diversidades inocentes ou seja, sem diversidade egoísta, como preferência por cor, ou roupa ou carro, desde que seja pelo estilo desses últimos e não pelo valor de mercado ou status que possa oferecer.
Então, as palavras corrupção e criação, em sua etimologia, são equivalentes quando implicam em dizer algo novo, mas diferem no sentido de que a primeira implica em uma novidade dentro de um mesmo ambiente ou nicho social, enquanto criação implica em uma realidade desvinculada do antes.
Enfim leitor, se você concebe a diversidade é porque você é limitado e como tal poderá saciar a limitação através de dois caminhos a sua escolha, o da força fraca, ou seja, dominar os iguais(ou diferentes) através da corrupção;
ou então ser capaz de sonhar acordado através da habilidade de superar seu próprio passado, nos termos do esquecimento conforme lecionou Nietzsche..
No primeiro caso, leitor, você precisará de reconhecimento ou poder, ou seja depender que seus iguais acreditem no mesmo que você acredita ou que te obedeçam.
Já no segundo caso não precisará de nada, além de ser querer interno!
Meu caro leitor, você pode até não ter criado o mundo, mas se está aqui pode transformar a inveja que teve do criador, a qual te trouxe até aqui, para realizar sua plena autodeterminação!