Macumba

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domingo, 22 de dezembro de 2019

Autarquismo 2010


Autarquia desde Aristóteles.

1.      Introdução com objetivo da exposição.

2.      Posição do sábio na sociedade.

3.      Liberdade X finalidade ou pretensão.

4.      Autarquismo na Grécia antiga. Caso Cálicles X Sócrates.

5.      Conclusão. Autarquismo na nova era.



“By now as we both know; we are here not because we are free, we are here because we are not free.” Smith para Neo em matrix 2.[1]



1.      Introdução com objetivo da exposição.

            Aristóteles é tido como um filósofo grego independente, lembrado por sua capacidade analítica, notada em vários campos do saber, além de ter eternizado posicionamentos filosóficos ou existenciais de vários pensadores de sua época. Também consta que foi orientador de Alexandre o Grande, por indicação de seu pai.

            Já no mundo moderno, a ideia de autarquismo é a premissa básica dos conceitos de psicologia, na medida em que para se analisar psicologicamente alguém há que considerá-lo como uma entidade potencialmente plena perante o mundo, ainda que não esteja exercendo tal plenitude.

            A ideia mais simples, e ao mesmo tempo profunda, do autarquismo pode ser expressa pela expressão “funcionar para si”. Ocorre que tal funcionamento é o ponto de alta indagação, tanto que sofreu alteração da época grega até os dias atuais causando visões autárquicas segundo características sociais. Donde surge a seguinte indagação: Se o autarquismo significa um funcionar para si como há espaço para diferentes espécies a depender do tipo de sociedade? Assim é porque a visão/percepção de  mundo do homem é limitada e suas conexões com o mundo vão variar em função disto. Daí, o autarquismo ser mais um caminho tortuoso do que uma doutrina fechada. Tortuoso porque variará de pessoa para pessoa em razão de afetos que cada um possui.

            Vale registrar que além de Aristóteles outros pensadores gregos e escolas helenísticas também se ativeram no desenvolvimento de teorias sobre o autarquismo. Sócrates teria sido uma forte inspiração para esses estudiosos, na medida em que despertou em sua sociedade uma espécie de dissociação entre como Atenas o via e sua autoimagem, em razão de ter aceitado sua execução por motivos distintos daqueles que a motivaram. Isto porque de um lado, o lado do polis, Sócrates merecia execução por negar os valores da polis que participava. Já do lado do Sócrates[2], ele acreditou que estaria dando um exemplo ao mundo dos mortos que mesmo diante da mais alta pena ele manteve sua retidão ética. Ou seja, houve uma dissociação gritante entre as crenças da sociedade face à de Sócrates.

            Então, a linha mestra do presente trabalho é a pretensão de dissecar a evolução do autarquismo da Grécia antiga até hoje.

2.      Posição do Sábio na sociedade.

            A expressão “sábio” é frequentemente utilizada pelos filósofos gregos para designar o que hoje se aproximaria de um intelectual, de uma pessoa altamente ética, ou de uma pessoa que teria compreensão das causas universais, ou seja, qualidades típicas de um filósofo.

            Essas seriam as características encontradas em um filósofo. Mas Aristóteles define ainda como ele deve se comportar socialmente: “De fato, o sábio não deve ser comandado mas comandar, nem deve obedecer a outros, mas a ele deve obedecer quem é menos sábio.”[3].

            Inicialmente cumpre esclarecer que na visão desse autor grego o sábio deve comandar, mas isto não significa que em sua sociedade o sábio comandava, mas, em sua visão, o ideal seria que o sábio comandasse.

            Pois bem, mas o que é comandar? Aristóteles não especifica didaticamente, mas explica que como o sábio conhece as causas mais próximas do “motor primário[4]” do mundo, assim, como ele teria maior discernimento ou controle sobre o funcionamento da realidade lhe caberia tomar as decisões no meio social. Como se vê, seria uma questão com forte marca de comparação: o sábio teria maior responsabilidade social pois teria maior capacidade para resolver questões do mundo do que as outras pessoas que também pudessem decidir, e que, portanto, seriam submissas a ele. Esse parece ser seu raciocínio, mediante leitura sistêmica de outros trechos da metafísica onde ele faz escalonamentos e aponta associações entre trabalhadores e funções ou entre técnicas e aprendizados.

            Já analisando isoladamente a frase transcrita, valem algumas críticas: A “obediência”, segundo Aristóteles, implica que o sábio seja reconhecido[5] como tal pelo meio social, donde se podem imaginar os seguintes panoramas:

·         Sociedade de castas, na qual a casta mais elevada, a do filósofo se prestará ao aprendizado das causas mais universais, motivo pelo qual seus integrantes serão considerados sábios.

·         Sociedade acadêmica, onde os governantes máximos deverão possuir graus ou títulos acadêmicos que justifiquem serem conhecedores das causas mais universais.

·         Ditadura, na qual o ditador se auto intitulará sábio pelas razões “elevadas’ que entender justifiquem a crença da intelectualidade superior.

·         Empresa, na qual os empregados obedecem o dono dela.

            Essas quatro distinções são meramente ilustrativas, pois visam encaixar a obediência dentro dos parâmetros da nossa sociedade. Isto porque ela só faz sentido dentro de um contexto com o outro, grupo ou com a sociedade como um todo. Daí, considerando tal objetividade, a obediência fora do contexto familiar só se justifica em razão de algum vínculo hierárquico. Ocorre que tal vínculo hierárquico não implica em total submissão, como exemplo, o dono da empresa não tem controle sobre a vida marital dos seus empregados, já em sociedade de castas é comum se encontrar o líder com algum tipo de disposição sobre a vida sexual de seus liderados, seja diretamente para ele ou então escolha de nubentes.

            Esse panorama de hierarquia entre as pessoas em razão de uma finalidade técnica aproxima a sociedade de um mundo mais autárquico, onde o homem terá mais chances de desenvolver suas potencialidades. Isto porque o respeito à técnica é em última análise um respeito a alteridade,  respeito ao próximo, ou, em outras palavras, a compreensão de que os outros também têm vontades, o que, em última análise, significa o autarquismo, pois o observador está compreendendo o mundo para a partir daí se adaptar da forma que encontrar mais agradável.

            Atitude oposta seria uma falta de compreensão do mundo, ou uma compreensão vesga(sem a alteridade) de maneira que o observador não se adaptaria segundo seus anseios, mas tentaria se adaptar ao nicho social que ele considerasse mais proveitoso em razão de status, vantagens ou pseudo proteções. Seria, nesse último caso, o estilo de vida pautado por pretensões utilitárias, aquelas de cunho a satisfazer complexos de inferioridade na tentativa de compensar deficiências. Ocorre que mesmo quando o observador alcance tais pretensões ele não consegue suprimir/superar sua deficiência. Pelo contrário, ele perde o eixo de sensibilidade que possui a titulo de ter alguma vantagem, proteção ou status que o tornaria mais “poderoso” socialmente do que outras pessoas comparáveis a ele.

            Vale registrar que a comparação é um sinal de fracasso. Quem compara o faz porque não confia em si, não conhece o autarquismo, ou em casos piores, precisa encontrar alguém em situação mais infeliz que a própria a justificar dentro de uma razão vesga a sua existência. Portanto, repito, para ficar cristalinamente claro, a vontade que o homem tem é o que demonstra se ele funciona para si ou não; e se há comparações apontam que o homem está menos atento ao funcionamento do mundo do que deveria. E estar apartado dessa percepção é fracasso certo na trilha do autarquismo, porquanto esse caminho não pode ser definido como bom ou ruim, prazeroso ou doloroso, certo ou errado, tortuosos ou retilíneo. A sua única definição é algo próximo do sentido de solidão, pois se não for a própria pessoa que desejar o autarquismo ninguém o colocará nesse sentido. Nesse peculiar uma frase resume bastante o que ora se defende: “Deseje o que você quer mais do que qualquer outra pessoa no mundo.”.

            Interessante notar que na Grécia antiga não havia definidamente uma separação entre a vida pessoal ou profissional, ou seja, o núcleo familiar com extrema densidade era uma referência quase que intransponível ao seu membro; e fora dela o grego seria vista segundo a sua função em seu clã ou posteriormente na polis. Daí, por exemplo, os casamentos somente ocorriam segundo tais critérios. Já hoje em dia, nubentes podem não ter entre sua união somente seu status familiar ou seu vínculo com a sociedade.

            Portanto, a compreensão de obediência da Grécia antiga para o mundo atual não é a mesma, pois os parâmetros de mundo são diferentes. Para o grego, seu nome de família fazia parte de sua apresentação como indivíduo, já para o mundo atual existe uma possibilidade de separação pela finalidade, a garantir que o status familiar não seja levado ao ambiente de trabalho ou amoroso. Em outras palavras, o mundo de hoje abre a possibilidade ao indivíduo de ter pelo menos três aspectos de sua vida com funcionamentos separados, o sexual, o profissional e o familiar. Tal liberdade de enfrentamento perante a sociedade não se encaixaria na Grécia antiga que somente aceitava o cidadão sob um aspecto, ou seja, a vida profissional, sexual e familiar deveriam se misturar em todas as interações da vida do grego.

            Em suma, a autarquia da época grega deve ser remodelada ao padrão estético moderno. Isto porque o comandante que interessa ao presente estudo é aquele que conhece suas potencialidades e as administra com boa funcionalidade. Para esse homem autárquico moderno não há que se falar em ser comandado ou, lado outro, comandar outrem, como entendeu Aristóteles. Ademais, em nossa sociedade permeada pelo valor constitucional da isonomia fica difícil em se conceber algum motivo que justifique alguém vir a possuir direito de não ser comandado e somente comandar tendo como único motivo a sapiência. Portanto, comandar e não ser comandado somente “levantando a bandeira, rótulo, título ou status do saber” poderia ser uma pretensão razoável para os gregos, mas para o mundo moderno é absurdo sob o crivo da legislação[6]; e de duvidosa credibilidade sob o ponto de vista moral, pois poucos são os que se conformariam em serem tidos como ignorantes a ponto de, por essa razão, serem liderados por alguém que se considere sábio, em uma relação de “mão única” de educação/comando.

3.      Liberdade X finalidade ou pretensão.

            Viver em autarquismo é ir além de Cronos[7]. É compreender que no mundo tudo é mutável e qualquer tentativa de aprisionar algum valor é ato falho. É compreender que a ciência é limitada e, portanto, indigna de confiança, pois, como se sabe, mais ou menos confiável é não confiável.

            Viver em autarquismo é se afastar de pretensões que não podem de plano ser expostas, porque caso não se possa ser sincero, presente no momento, então sequer se poderá falar na premissa do autarquismo que é a liberdade.

            Daí, devo enveredar pelas desconstruções para poder ser claro, digo utilizar um pouco do nilismo passivo, em ordem a “atacar” o estilo de vida humano. Isto porque a ideia das principais religiões do mundo moderno não se afastou da cultura de resultados: judaísmo, cristianismo, espiritismo, budismo, todas elas projetam uma pretensão a envolver as condutas que defendem, suas doutrinas.

            Na Grécia antiga, não era diferente, no período anterior a polis os mitos gregos defendiam uma vida heroica para que o barqueiro do mundo dos mortos conduzisse a alma para um belo mundo ou ao menos a uma segura estadia. E no período da polis defendia-se uma vida de retidão a garantir uma compatibilidade com alguma ideia de valor superior, como o amor fati dos Estóicos; ou a ideia de bem de Platão, já que a metafísica desta escola/academia colocava o plano da realidade concreta como inferior a um suposto “mundo das ideias”, inacessível ao homem, mas onde ele deveria se inspirar.

            Em relação aos Estóicos, há um ideal de conformação ao destino, mas em conceito de complexa explicação. Para eles o homem deve aceitar o que de bom ou ruim lhe acontece e ainda ser grato a tudo. Ocorre que a principal incompatibilidade dessa elucubração face o autarquismo reside na aceitação ao destino, pois o Estóico guiará suas atitudes segundo uma suposta retidão que eles acreditam possa ser aferida, segundo conceitos éticos. Já para o autarquismo não é possível creditar à ética pilar de retidão, porquanto ainda que se trate de um belo conceito sua aferição no plano concreto relativiza-se. O compromisso do autarquismo vai além de qualquer conceito, inclusive o da ética, pois ainda que o autarquismo, como na ética, pregue atitudes francas e transparentes, lado outro, o autarquismo implica numa constante necessidade de autoafirmação a qual pode desaguar em condutas tidas como antiéticas ou sem retidão, na avaliação dos Estóicos. Em suma, a ética que os Estóicos tanto estudaram e necessária para uma vida de conformação ao destino é um conceito que encerra uma finalidade, a de retidão, de vida digna. Porém tal vida digna, aos olhos do autarquismo encerra um conceito com marca de cultura de resultados; e que pode impor uma limitação inadequada às atitudes do homem em autarquismo.

            No que tange ao legado da academia de Atenas, a ideia de bem constante na parábola da caverna[8] possui várias interpretações. Aquela mais próxima do autarquismo seria a que o “bem’ simboliza a integração dos opostos, ou seja, ver o mundo sob vários ângulos, ou melhor ainda, todos os ângulos possíveis. Por certo, quanto mais visão o homem tiver mais preparado para a vida ele será. Ocorre que a integração de opostos não implica, por si só, em autarquismo. Integrar os opostos é sem dúvida sinal de superação, da melhor superação possível, digna da abordagem de Nietzsche[9] ao tema. Ainda assim, integrar os opostos no sentido da parábola da caverna exprime uma revelação social e não uma integração voltada ao “ser fim para si” do autarquismo. Isto porque a busca de Platão era de uma suposta sabedoria sobre o meio social, mas tal procura não é a mesma do autarquismo, pois esse não tem interesse em integrar opostos do mundo. É que aos olhos do autarquismo o mundo é, de fato, composto de opostos dissociados, mas isso não é problema, até porque nada se pode fazer com quem está satisfeito ou “empacado” em um dos polos. Por isso, o foco do homem autárquico não é resolver/integrar opostos, ainda que se afastar de opostos seja uma trilha natural do autarquismo. A diferença é sútil em teoria, mas na prática é uma vala gigantesca, pois concretamente tentar integrar opostos nada tem a ver com respeitar sua existência, mas se afastar deles.

            No mundo moderno não é substancialmente diferente dos antigos no que tange à cultura de resultados. A educação familiar ou social modernas continuam uníssonas a “adestrar” o homem dentro de uma perspectiva sucesso x fracasso, como se isso pudesse ser aferido culturalmente. Tal educação olvida/ignora uma premissa muito simples, a da diversidade. Nem todos são obrigados a gostar da mesma coisa. Nem todos são obrigados a aplaudir ou vaiar uma peça teatral ao mesmo tempo. O efeito manada, aquele pelo qual o homem se sente seguro quando todos agem da mesma maneira pode parecer convidativo em uma fugaz análise, mas é excludente da liberdade, até porque a manada tende a se volta irascivelmente àquele que escapa de seu paradigma.

            Portanto, voltando “ao fio da meada”, a cultura de resultados tolhe a liberdade do homem, na medida em que o aprisiona a formatações já existentes as quais tem como única finalidade atender à vaidade de quem delas participa. Isso quer dizer que se alguém desejar o belo pela simples explicação que ele é considerado belo, caso essa pessoa consiga possuir tal padrão estético se dará conta que aquela beleza escondia algum padrão sustentado por pretensões alheias. Temos como exemplo clássico deste desejo pelo belo recorrendo aos contos míticos das ninfas. Elas são belíssimas e encantadoras, mas quem as possuir pagará um preço por isto. E, a razão de se ter que pagar tal preço é de uma clareza meridiana: elas estão ali para alimentar pretensões de outrem, como um parente delas ou algum tipo de chefe, razão pela qual possuí-las implica na assunção de um pacote que também incluir aderir às crenças delas.

            Pelo outro lado, não significar dizer que sempre o belo oculta pretensões “maldosas”. Tudo depende das circunstâncias que, por exemplo, cercam o aparecimento das ninfas. Sentir atração por algo ou alguém é sintoma de liberdade. Mas pode ser que o objeto do desejo aspire ao desejante lhe tolher a liberdade.

            E, esse conto das ninfas ilustra cristalinamente a cultura de resultados. O desejo por essas beldades ordinariamente vai além de sua beleza, cobiça sua suposta pureza, seu suposto poder de sedução perante todos, como uma espécie de título. Não é a toa que em várias culturas do mundo as ninfas, em contos míticos, assumem feições belas e juvenis para conquistar a “vítima”, mas caso esse se dê conta que seus encantos escondem uma natureza predadora, então a ninfa se transforma em alguma espécie de demônio frustrado pela não conquista. Em suma, a vítima possui algum poder que é cobiçado por alguma espécie de clã que a ninfa integra, então a ela investe para seduzir a vítima e lhe tomar o poder. Como vemos, essa é a cultura de resultados, pois tanto a vítima ou a ninfa desejam em seu algoz algum poder que ele detém. Vale dizer: não querem tão somente a companhia um do outro, mas sim possuir algum atributo alheio.

            Tal paradigma, o das vontades ocultas, afasta o homem do autarquismo, afasta o homem de ser fim de si mesmo. Por óbvio, no caso das ninfas, se a vítima deslocar sua energia sexual e entregar esse poder para ela, e consequentemente ao seu clã, então, o homem não estará depositando sua energia para si mesmo, mas entregando a outros.

            Não obstante esse mito, nem toda união sexual equivale a tal entrega de poder, esse afastamento do autarquismo. Assim como em todos os aspectos da vida, o obstáculo ao autarquismo não é o afeto, mas sim desejar o afeto, não pelo próprio afeto. O dinheiro também é ilustrativo, e cobiça-lo somente para ter poder, para usar as outras pessoas é como o caso do homem que só quer possuir a pureza das ninfas, olvidando serem seres humanos com vontades. Vejamos, comprar um carro porque se sentiu bem em dirigi-lo é substancialmente diferente de comprar um carro pelo status que ele trará. Tais opções parecem óbvias, mas na prática da história humana o mais comum é o cidadão ser movido não pelos seus próprios sentimentos, mas sim pela quantidade de atenção que terá, ou seja, o cidadão deposita suas expectativas de um futuro melhor na repercussão dos seus atos e não na alegria de agir. Como exemplo cito clichê dos contos gregos, repetido em vários filmes no que tange aos heróis míticos: “Você quer uma vida comum e depois ser esquecido ou prefere que seu nome seja lembrado por toda a eternidade?”. Essa é a tal glória, tão cobiçada desde os primórdios da civilização. Aqui vale tecer outra diferença entre o mundo grego e o atual. Como se sabe, os gregos viviam com uma íntima ligação com seus deuses. Havia deuses da razão, da justiça, dos mortos, dos excluídos. E, os acontecimentos na sociedade eram todos explicados pelas vontades dos deuses. Aqui, fica muito claro como a sociedade grega não defendia valores autárquicos, pois se o homem devia viver em função de uma suposta glória pos-morte, ou de agradar Deuses, então, se o foco de atenção não era si mesmo, mas outras pessoas que estariam em outro mundo, seja no futuro ou no Olimpo, os gregos funcionavam imersos na cultura de resultados.

            No período helênico houve questionamentos sobre esse estilo de vida e as escolas filosóficas da época aprofundaram estudos sobre a ética, com o enfoque de estudar modelos de vida ideais, ou pelo menos atitudes nesse sentido. Mas, nenhuma grande evolução ao que já existia antes foi feita, podendo-se dizer, ao menos, que foi um período onde se debateram questões com mais liberdade e de forma mais organizada. De qualquer forma, Aristóteles, ainda no período pré-helênico já tinha vislumbrado em suas compilações acadêmicas o esboço do que foi aprofundado no helenismo.

            Hoje em dia não é tão diferente no que tange à cultura de resultados. Talvez a maior diferença entre eles e nós, modernos, é que agora não mais nos contentamos em glórias pos-morte. O cidadão brasileiro quer o retorno ou ganho pelas suas atitudes ainda em vida. Ninguém mais se seduz por fama eterna. Hoje o homem quer colher os frutos de fama que eventualmente conquistar ainda em vida. Portanto, a cultura de resultados sobre um futuro pós-morte foi transferida para um futuro ainda em vida. Como se vê, ainda é a cultura de resultados, de ganhos, do toma lá da cá; com a diferença que o grego acreditava em benefícios para depois da morte, quiça, no Hades. Já hoje em dia o homem quer o resultado para em usufruir/consumir/dominar em vida.

            Quanto a religiosidade, deixou de ser questão de clã, ou de polis, para virar crença individual, salvo exceções como Israel, Irã ou Vaticano(considerado como uma pátria apesar de se situar na Itália). Ou seja, pessoas de uma mesma família ou de mesma cidade ou país têm crenças distintas, e, ainda assim, convivem bem com isso.

            Esse avanço, o da liberdade de crença religiosa em muito contribui ao autarquismo porquanto abre as portas da transmudação da realidade em substituição à cultura de resultados. Hoje em dia a psicologia se encarrega de cuidar dos aspectos que antes podiam se considerados como magia ou vidas passadas, de maneira que se franqueia ao homem o poder de mudar sua vida, através da compreensão de que somos responsáveis pelos nossos atos. Isto é a psicologia: entender que o que acontece no mundo é causado pelo observador, não havendo, portanto, espaço para atribuir a causa dos fatos aos Deuses ou algo imutável como uma limitação imposta por explicação espírita, como um encosto ou uma cobrança em razão de falhas em vidas passadas.

            Daí, posso concluir esse tópico com a seguinte proposição: Questionar o funcionamento da sociedade é sintoma de autarquismo? Por certo quem não sabe que há vida além da manada não questionará ela! Mas, questionar a manada e continuar nela vale a pena? É autarquismo? Muitas vezes, quiça quase todas, os padrões estéticos das manadas só se justificam de uma maneira. E, tentar alterá-lo além de sacrificante pode ser inútil. Então esse conflito ou embate, ou em outras palavras, essa relação custo benefício será aprofundada no último tópico.

4.      Autarquismo na Grécia antiga. Caso Cálicles X Sócrates.

            O grego iniciou o processo da polis após o início da escrita. A pólis foi uma novidade ao modelo anterior, o das monarquias clássicas, e sua grande novidade foi a transferência de poder dos clãs para o governo da polis.

            Ocorre que essa mudança, a qual aparentemente só teria vantagens frente ao modelo anterior, não se mostrou bem sucedida em vários aspectos, como por exemplo a condenação equivocada de seus cidadãos, ou os lixões que se formaram dentro/próximos às cidades, ou seu maior fracasso, as guerras entre as cidades.       

            Sobre o prisma do autarquismo, o início da polis complexificou sua análise. Antes, a vala que separaria uma atitude autárquica ou não seria pautada pela visão do monarca, ou seja, se seu reino estaria atendendo as suas vontades. Já na polis o governo é do povo, daqueles considerados cidadãos. Então, o rei, soberano de seu clã, cedeu o poder para algo maior que ele, a polis. Portanto, se antes o autarquismo se resumia ao monarca atingir todas as suas potencialidades perante seu reino, já na polis o autarquismo se deslocou na capacidade do homem de atingir todas as suas potencialidades na qualidade de cidadão.

            Antes, o parâmetro era considerando se todas as pretensões do monarca, na qualidade de administrador de seu clã, estavam sendo atendidas. Depois, o parâmetro passou a ser se o homem teria alcance sobre todos os seus interesses perante sua cidade. É isto que se exprime da seguinte passagem de Aristóteles: “é evidente que, como chamamos livre o homem que é fim para si mesmo e não está submetido a outros...”.[10].

            Isto significa que o homem autárquico da polis perdeu sob vários aspectos sua capacidade de integrar/impor suas potencialidades, pois como ser doméstico de sua cidade passou a ter outros limites além da visão de mundo do seu povo local. Isto porque a polis quando se consolidou deixou de ser somente um ajuntamento de cidadãos para ser também um polo cultural da região. É que assim como ocorre hoje com as cidades capitais/centrais em relação às periféricas, no nascimento da pólis ela passou a ser uma espécie de centro cultural não só de seus moradores, mas também de todos os clãs das redondezas. Então, desta maneira, o homem teve sua visão de autarquia alterada pelo contato com as demais culturais, doravante chamado de choque cultural.

            Não é a toa que o choque cultural é tido por vários especialistas como um dos principais fatores para o desenvolvimento da filosofia na Grécia antiga. Mas, o que venho dizendo nesse capítulo até agora são premissas para se abordar a seguinte questão: teria o estilo de vida da polis suprimido/mutilado/bloqueado valores humanos autárquicos?

Creio que a resposta seja sim, e o motivo não é pela domesticalização do homem, ou, em outras palavras, a rejeição do herói, do símbolo do guerreio impiedoso e sua troca pelo homem do diálogo, pelos debates coletivos. A polis bloqueou valores autárquicos em seu cidadão ao criar valores morais, ou como se é dito hodiernamente: a necessidade de respeito ao politicamente correto.

            O politicamente correto é um atentado ao homem livre, na medida em que ele não pode se expressar senão dentro daquele padrão socialmente aceito. Mas, então, haveria uma incompatibilidade entre o homem autárquico e a polis? Provavelmente sim, ao menos no que tange a polis grega porquanto tal sociedade tinha regras morais rígidas.

            Paralelamente a isto ocorriam festas além do politicamente correto, como a dedicada a Dionísio ou, ainda, o teatro. Ocorre que eram aspectos excepcionais que só serviriam para comprovar a regra de que o convívio em uma polis exige normas de condutas rígidas pautadas por regras morais.

            Portanto, temos um panorama bastante paradoxal. Por certo, a vida numa polis tem vantagens e desvantagens, assim como a vida em um centro periférico. No entanto, para que o homem busque a autarquia a polis que ele deverá participar há de ser a mais plural possível, ou seja, sem uma religião oficial, ou um modelo de casamento, sem estratificação social de ordem familiar ou profissional. Então, a Grécia antiga não atendia a todos esses requisitos. Quanto às crenças a polis grega herdou os mitos antigos como uma espécie espiritualidade. Quanto a estratificação social, existia divisão entre escravos e cidadãos; e entre homens e mulheres.

            Passando ao diálogo Górgias na parte da conversa entre Cálicles e Sócrates vale analisar trecho bastante ilustrativo sobre o tema em tratamento:

Cálicles — Já o disse: os que entendem dos negócios públicos e são corajosos. A esses é que compete governar as cidades, mandando a justiça que tenham mais do que os outros, os governantes mais do que os governados.

Sócrates — E com relação a eles próprios, amigo: são governantes ou governados?

Cálicles — Que queres dizer com isso?

Sócrates — Digo que cada um deve comandar a si mesmo. Ou não haverá necessidade de  ninguém comandar-se a si mesmo, mas apenas aos outros?

Cálicles — Que entendes por comandar a si mesmo?

            Como se vê, este é um raro trecho revelador de um raciocínio embrionário que justifique a crença de separação entre o ser e o ambiente que vive. Ou mais precisamente dizendo, uma crença que reconheça a possibilidade que mudanças internas são aptas a causar reflexos no meio.

            É que os gregos não acreditavam em uma força interior que haveria de ser resolvida por si só. Para eles todas as batalhas teriam de ser travadas na sociedade.

            Este embate esbarrou nos limites da imanência e chegaram a “chutar as paredes” de seus contornos como quem quer enxergar mais adiante. No entanto, nem o filósofo Sócrates ou seu alter ego sofista Cálicles demonstraram compreensão da existência de uma própria força interior[11].

            É o que transparece da resposta do filósofo:

Sócrates — Não se trata de nada abstruso; a esse respeito penso como todo o mundo: ser temperante e dono de si mesmo, e dominar em si próprio os prazeres e os apetites.

Cálicles — Como és engraçadinho! Aos simplórios é que dás o nome de temperantes?

Sócrates — Como assim? Não há quem não perceba que não foi isso que eu disse.

            “Ser dono de si mesmo” é uma frase que poderia remeter ao homem que se auto afirma em sua existência, segundos conceitos de Nietzsche[12]. Mas não foi isto que Sócrates quis dizer. Seu raciocínio não caminha no sentido do desenvolvimento do Deus interior, ou seja, do autoconhecimento capaz de conduzir à superação.

            Sócrates defendeu que autocontrole é manter o hedonismo domado, ou seja, não alcançou o homem como fonte sua força, seu conteúdo psíquico.

Por sua vez segue transcrição da passagem mais bela que se tem registro dos textos antigos:

Cálicles — Foi isso, precisamente, Sócrates. Pois como poderá ser feliz quem for escravo do que quer que seja? O belo e justo por natureza, digo-o sem o menor constrangimento, é que quem quiser viver de verdade, longe de reprimir os apetites, terá de permitir que se expandam quanto possível, e quando se encontrarem no auge, ser capaz de alimentá-los com denodo e inteligência e de satisfazer a todos eles à medida que se forem manifestando. Mas isso, justamente, segundo penso, é que não é para toda a gente; eis porque a maioria dos homens censura as pessoas capazes de assim viver, por se envergonharem da própria debilidade, que procuram esconder, e qualificam de feia a intemperança, para escravizarem, conforme disse há pouco, as pessoas bem-dotadas por natureza. Sendo incapazes de satisfazerem suficientemente suas paixões, elogiam a temperança e a justiça com base em sua própria pusilanimidade. Pois para os que nasceram filhos de reis, ou que por natureza sejam capazes de conquistar algum império ou o poder e qualquer domínio: haverá nada mais vergonhoso e prejudicial do que a temperança para semelhantes indivíduos? Tendo a possibilidade de gozar de todos os bens, sem que ninguém se lhes atravesse no caminho, iriam impor a si mesmos um déspota, a saber, a lei da maioria, e o falatório dos outros, e as censuras? Quão infelizes não se tornariam, pelo fato mesmo da beleza da justiça e da temperança, se não pudessem dar mais aos amigos do que aos inimigos, e isso apesar de serem donos de suas próprias cidades? O certo, Sócrates, é que a verdade que tu presumes procurar é simplesmente isto: o luxo, a intemperança e a liberdade, quando devidamente amparados, é que constituem ao certo a virtude e a felicidade. Tudo o mais, todos esses enfeites e convenções contrárias à natureza, não passam de palavrório sem valor..

            Infelizmente, a contestação que se seguiu de Sócrates foi evasiva. Ao que pareceu deste discurso é que o alter ego foi além da “locomotiva”.

            A primeira parte do parágrafo é a exata premissa de quem quer desenvolver o autarquismo: “que quem quiser viver ao máximo, longe de reprimir os apetites, terá de permitir que se expandam quanto possível, e quando se encontrarem no auge, ser capaz de alimentá-los com denodo e inteligência e de satisfazer a todos eles à medida que se forem manifestando.”.

            Esse é o caminho para a autoafirmação através de potencializar a força interior.

            Mas, é uma pena que não foi isto que Cálicles quis dizer. Sua premissa é certeira, mas sua conclusão gira em torno da manipulação do ambiente em seu favor. Ou seja, Cálicles pretende ser livre relativamente ao ambiente que vive.

            Enfim, ele quer dominar a sociedade segundo sua conveniência. Não pretende desabrochar sua força interior para que através do conhecimento dela expandir sua sensibilidade em favor de sua liberdade. Pelo contrário, ele quer ter poder para agraciar os amigos, como ele mesmo disse, e assim poder ser reverenciado por eles em um ciclo vicioso que pode trazer certo “conforto para a alma”, mas que na realidade está afastando ele dele mesmo, ou seja, atropelando uma visão autárquica.

Aqui está clara a diferença entre a filosofia antiga e a contemporânea: A liberdade ao grego é relativa, ou seja, não ser dominado por outros homens, e se for o caso impor a sua força quando necessário ou prazeroso.

            Já a liberdade na filosofia que se desenvolveu após a Grécia antiga[13] é outra: desabrochar a psique para através de seu autocontrole/sensibilidade se alcançar a domínio de si mesmo.

            Como se vê, o grego era cego além dos limites da imanência.

            Fazendo uma comparação do grego antigo com o homem moderno, é viável se dizer que o autoconhecimento de um grego perante a realidade não passaria de um feto perante a sua mãe, ou seja, totalmente imanente ao ambiente e com todos os sinais da autêntica liberdade indiretos e imprecisos.

            Por fim, acerca do estágio ideal apontado por Cálicles: Virtude e felicidade, baseados no hedonismo, luxo e liberdade; são expressões de uma busca que em última análise não passam de valores efêmeros, conforme foi descrito por Sócrates em longas falas no diálogo sob análise.

            Sentimentos de integração ou prazer, ainda que admitidos como objeto da vida não passam de consequências cujas causas não são passíveis de debates ante seu caráter pessoal, ou seja, diferente a cada indivíduo.

            Mesmo que se admitisse uma vida hedonista, cercada de amor, como modelo, os caminhos para se atingi-la seriam diferentes para cada ser, razão pela qual qualquer tentativa de defini-la não se insere no campo do debate das ideias, por serem questões resolvidas no caso concreto e em caráter individual, não valendo para uma pessoa a causa que provocou prazer a outrem. Talvez, a sensação mais próxima de hedonismo coletivo seria o uso de drogas, mas, como se sabe, mesmo quando se usa drogas que causam sensação de prazer há de se ter temperança, para não se acabar em uma clínica e ser privado delas.

            Em suma, temperança e hedonismo são duas faces da mesma moeda, como a vontade de comer e a necessidade de parar e refletir até que ponto a sensação causada é agradável.

5.      Conclusão. Autarquismo na nova era.

            Essa singela monografia de conclusão de especialização em filosofia seria muito pretensiosa se taxasse exatamente o que é a autarquia ou pretendesse relacionar padrões autárquicos fechados.

            Quiça, o máximo que um texto sobre autarquismo possa fazer é um nilismo passivo, ou seja, simplesmente “atacar” gestos cotidianos incompatíveis com pretensões autárquicas. Dizer, afirmar, cerrar o autarquismo ou eventual estilo de vida dele derivado provavelmente seria incompatível com ele próprio, como Heráclito[14] disse sobre a água do rio que nunca é a mesma, em analogia a vida. O que hoje pode atender aos interesses do homem amanha pode ser diferente e não há como afastar o referencial do observador, daquele vivente.

            Afastar o referencial do observador é ignorar no homem aquilo que ele tem de melhor: sua criatividade, sua capacidade de inventar, tornando o ambiente em que vive mais adaptável a si. E, esse referencial, essa ligação entre o homem e o ambiente somente pode ser aferida no caso concreto, no lugar e no momento que o homem está desejando, ansiando por algo.

            Do que adiantaria uma bela casa em um deserto? A Primeira lição que o homem tem no mundo é que não há como se desconectar dele. No ventre é conectado a mãe. No nascimento é conectado pela respiração, assim como uma casa tem as suas conexões de água, esgoto, luz e etc.

            Ainda que se faça uma casa mais independente, com uma nascente própria, eletricidade solar e etc, ainda assim meio externo estará contribuindo com o abastecimento da casa. O homem é igual, um ser em total conexão com seu ambiente e sua capacidade de melhorá-lo é a melhor definição de uma atitude autárquica.

            É que jamais essa monografia poderia pretender dizer que o autarquismo é uma atitude estática até porque nada estático sobrevive nesse mundo. Então, o autarquismo talvez possa ter como melhor definição um “estilo de vida”. Isto significa que viver em função de si mesmo é antes de mais nada a compreensão que isto é impossível. Esse mundo é uma interconexão e ultrapassar esse panorama faria o mundo perder qualquer sentido. O que se tem de concreto é que o meio/realidade é reflexo do vivente, do observador e escolher pela atitude autárquica é a postura mais corajosa/íntegra que o homem pode empenhar no mundo.

            Conforme descrito em parágrafos acima cumpre esclarecer que o homem adaptar o ambiente a si, como é o caso do autarquismo, nada tem a ver com o darwinismo de que os fortes sobrevivem, pois se adaptam melhor ao ambiente. Quiça a máxima darwiniana valha, mas somente para os seres irracionais, não para o homem e a grande revelação disso é como a sociedade humana altera a área onde está. Não é porque a vida existiu como Darwin propôs durante bilhões de anos, que após a existência do homem a regra mude. E está claro que o homem tem o poder de transformar o ambiente como nunca visto antes e a prova disso é a preocupação com a ecologia, seja para se garantir um ambiente belo, em plena integração com recursos úteis ao homem, seja para evitar que a utilização em larga escala de bens de consumo possam comprometer a saúde de uma região ou de todo o planeta, como é o caso do suposto aquecimento global e suas consequências.

            Ou em outras palavras, não pretendo dizer que toda a evolução na vida na terra tenderia ao homem de maneira que qualquer histórico nesse sentido fosse irrelevante. Não diria isso, pois compreender o passado é útil para um futuro livre.

            Ocorre que aos olhos do autarquismo adaptar-se ao meio como expõe o darwinismo é um erro. Não cabe ao homem autárquico se encaixar onde houver espaço. Cabe ao homem autárquico se encaixar no espaço que ele achar razoável e enquanto esse espaço não estiver em seu caminho aguardar até que ele apareça. Lado outro, para o darwinismo não há margem para essa seleção por parte do homem, já que a “seleção é natural”. Tal expressão que se eternizou no estudo da evolução das espécies implica numa necessidade de adequação ao meio, sob pena de não ser aceito por ele e daí ser ultrapassado pelo seu trem inescapável, o da seleção natural.

            Em suma, reduzir a capacidade cerebral humano às leis da selva é falácia. Não cabe ao homem justificar a necessidade de abatedouros de animais porque seus ancestrais os caçavam. Da mesma maneira que não há razão para alguém ter medo de uma pessoa maior da mesma maneira que zebras tem medo de leões. O cérebro humano  deve ter esta compreensão para que suas atitude não sejam limitadas por instintos antigos sem validade para sua realidade presente. O autarquismo é por excelência uma superação. Essa é sua principal característica: superar o que não mais lhe interessa. Obedecer somente a si mesmo tem um caríssimo preço: o da ausência de comparsas ou conforme xingamento popular “baba-ovos”.

            Ser autárquico não significa ser solitário, mas significa abrir mão de certos tipos de companhia. Não pode o homem autárquico se cercar de comparsas, de pessoas que a ele se aglutinam para dar algum tipo de consolo amalhoado, dando incentivo a tomar atitudes que sozinho não teria coragem. Nem tão pouco pode se cercar de pessoas que o estão apoiando em razão de interesses espúrios, como medo ou necessidades. Ao homem autárquico não é franqueado o direito de se divertir vendo a desgraça alheia. Essa infelizmente é a regra da sociedade humana desde seus primórdios: Se agraciar vendo que o próximo está em condições piores que a própria. Mas, ao autarquismo não vale esse tipo de comparação, sob pena, em última análise, de haver uma espécie de conformação á hipótese de seleção natural. O homem autárquico não está competindo, ele está descobrindo o mundo, donde disputas sociais ainda que eventualmente bastante contagiantes em nada contribuirão para uma visão mais ampliada de mundo/de padrão estético. Disputar é uma alegria que se insere no campo da falta de confiança, da carência de autoafirmação que é facilmente exemplificada em uma família com irmãos buscando a atenção dos pais. Nenhuma disputa vai além de uma necessidade de reconhecimento. Quem sabe seu potencial não precisa demonstrar a força que tem. E, o homem autárquico não está atrás de glamour, ele quer se apoderar de todas as forças que lhe interessam e descartar as inúteis. E, ter o título de ser melhor do que alguém ou estar a frente de determinado status são forças totalmente inúteis a quem pretenda que suas atitudes sejam fim para si mesmo, parafraseando o trecho citado em Aristóteles.

            Ser fim para si mesmo exige uma desconstrução intensa até as profundezas de conceitos sociais. Significa ter uma plena visão dos acontecimentos, sendo capaz de perceber a vontade existente em ambos os polos da dialética. Sem essa premissa, a da visão multilateral jamais o homem terá o potencial a ser fim de si mesmo, mas sim estará atendendo ou se submetendo a algum padrão estético já estabelecido.

            Ser autárquico é não se conformar com nenhum padrão estético que não lhe agrade integralmente, ou ainda ir mais além, criar padrões estéticos[15].

            E, o autarquismo tem um íntimo relacionamento com a estética na medida da necessidade de compreensão do “fim para si mesmo”, ou seja, se o homem realmente está funcionando para si ou se está atendendo a algum padrão estético de outrem. Vejamos um caso hipotético bastante trivial, aspecto laborativo. Qual o critério que alguém utiliza para exercer uma profissão? Salário, status, superação paterna? Por certo esses três casos, os mais comuns, são todos padrões estéticos de outrem e não de quem busca a atividade. É que o trabalho é uma função que toma o tempo do homem e por isso deve ser algo que ele se identifique. Para o autarquismo, de nada adianta o homem destinar seu tempo a qualquer função que não se identifique, que não faça parte dele, que não haja uma conexão de vontade íntima, nascendo de dentro dele. Esse é o estético que interesse ao “fim para si mesmo”. Ou, em outras palavras, o homem autárquico deve desejar o que quer mais do que qualquer outra pessoa. O objeto de seu desejo deve derivar de sua vontade mais interior, mais sua, sob pena de simplesmente atender o padrão estético de outra pessoa, grupo, ou até da sociedade como um todo.

            O verdadeiro homem autárquico, aquele que reconhece ser a causa dos acontecimentos, sejam eles bons/agradáveis ou ruins/desagradáveis, compreende que sua vontade deve se sobrepor inclusive a padrões estéticos adotados unanimemente por todos os membros dos locais que ele tenha contato. Isto não significa que ele será melhor que ninguém ou “pisará” em alguém, Isto significa que ele compreende seu próprio padrão estético, e tal ideia é tão forte a ponto de se chocar com o padrão estético de toda uma coletividade e ainda permanecer válido.

            Ainda sobre o padrão estético, oportunamente vale tecer alguns esclarecimentos sobre a tal da “verdade”. O que ela é? Uma versão dos fatos, os próprios fatos, uma ideia sobre algum acontecimento sem possibilidade de revisão? Não há como separar a verdade da relatividade ao observador, razão pela qual o máximo de verdade que o homem é capaz de perceber são os fatos que estejam em pleno acontecimento, em plena pulsão, pois essa é a realidade. E, o padrão estético está diretamente ligado a tal realidade porquanto esse dinamismo é por onde o homem encontra seus limites e daí ou se adequa a padrões estéticos de outrem ou se identifica com sua própria estética. A premissa para compreender a realidade é a mesma ideia inicial das análises psicológicas: aceitar a si próprio. A partir daí o homem pode começar a se dar o luxo de ser autárquico, pois sem confiança em si somente restará confiar/engolir padrões estéticos pré-existentes. Na prática, só se dá ao luxo de ser autárquico aquele que não fala por intermediários ou se qualifica como um. Ou ao menos que se for um intermediário que esteja claro/consciente que é um.

            Cumpre deixar claro que o autarquismo se relaciona com a desconstrução de padrões morais notadamente quando afasta intermediários do seu campo de relações. Vejamos, um garçom pode garantir/atestar o chopp que serve? Um corretor é confiável em dizer ao pretenso vendedor sobre eventuais problemas de um imóvel? Um padre/religioso/mago pode responder por questões transcendentais? Ou na época de Aristóteles: Um sobrenome familiar ou o sobrenome da polis são suficientes para dar o caráter do homem? O filósofo é digno de irrestrita confiança a ponto de ser o natural governante, conforme defendido no diálogo A República? O homem autárquico é por excelência um ser vivente, um homem que encara a vida de frente, sem máscara, títulos ou qualquer tipo de status que o torno digno de uma confiança formal ou protocolar.

            Imagino que o que venho defendendo seja um tanto paradoxal e de fato é. E a razão é simples: o mundo é dinâmico e em última análise o objetivo do autarquismo é deslocar o homem para seu próprio padrão estético. E a cada plus nesse quesito a realidade transmuda junto com o homem. Daí, por exemplo, não haver espaço para atitudes autárquicas, por exemplo, em um local dominado por formalismos. Mas, isto não significa que não possa haver alguém com pretensões autárquicas naquele ambiente. Ocorre que caso sua visão se amplie a realidade mudará, ou seja, o local deixará de ser tão formal para se tornar mais dinâmico ou então o homem que “evoluiu” irá para outro ambiente onde haja mais dinamismo.

            Nesse ponto a comparação entre a Grécia antiga e o mundo contemporâneo é muito útil a demonstrar a vala que separava atitudes autárquicas naquele mundo e no nosso, ilustrando, assim, como o autarquismo é relativo[16]. É que ainda que alguns mitos gregos sirvam para ilustrar atitudes do cotidiano moderno sua força mística não mais assusta ou seduz o homem moderno a ponto de pautar suas atitudes. Vejamos, os mitos gregos transcendentais, ou seja, os deuses gregos e suas funções, os quais eram questões sociais inquestionáveis; já hoje foram remodelados pelas religiões e todas passíveis de questionamentos. Ou em termos mais concretos: Sócrates foi julgado por não adorar os deuses da Grécia, já hoje é perfeitamente cabível a adoração dos deuses segundo cada religião ou até nenhuma adoração, como o caso do ateísmo. Em suma, o que antes era uma questão de obrigatoriedade cívica, hoje não passa de uma adesão opcional do cidadão.

            Para quem vivesse na Grécia antiga e talvez sonhasse com uma vida de total liberdade, algo como um ideal autárquico, possivelmente iria orientar suas ações no sentido de mimetizar posturas de Zeus, já que ele era uma espécie de imperador do Olimpo, após destronar seu pai Cronos. Hoje, o autarquismo perdeu orientações como essas, tanto que a máxima de Aristóteles de que o homem sábio não é comandado, mas comanda fazia sentido na Grécia antiga, onde o status do cidadão ante a polis determinava sua sorte até em aspectos pessoais. Ocorre que hoje em dia a indagação sobre comando foi deslocado do campo social para o campo psicológico, ou seja, sábio não é quem não é comandado, mas sim quem tem domínio psicológico adequado para as situações que vivencia.



Bibliografia Básica:

NIETZSCHE, Friedrich, Além do bem e do mal, Editora Companhia de Bolso, 2005, São Paulo/SP.

Os Estóicos, Organizador Brad Inwood, Editora Odysseus, 2006, São Paulo/SP.

Fédon, diálogo sobre a alma e morte de Sócrates, Martin Claret, 2007, São Paulo/SP.

BOECHAT, Walter, A Mitopoese da Psique, Editora Vozes, segunda edição, 2008, Petrópolis/RJ.

CAMPBELL, Joseph, Mito e Transformação, Editora Ágora, 2008, São Paulo/SP.

NIETZSCHE, Friedrich, Crepúsculo dos Ídolos, Editora L&PM Pocket, 2009, Porto Alegre/RS.

Apologia de Sócrates. Editora L&PM Pocket, 2009, Porto Alegre/RS.

Os Filósofos e a arte, Organização Rafael Haddock-lobo, Editora Rocco, vários autores, 2010, Rio de Janeiro/RJ.

A República, Editora Martin Claret, segunda edição, 2010, São Paulo/SP.

NIETZSCHE, Friedrich, Genealogia da Moral, Editora Companhia de Bolso, 2011, Petrópolis/RJ.

NIETZSCHE, Friedrich, Vontade de Potência, Editora Vozes, 2011, Petrópolis/RJ.

SÊNECA, Sobre a brevidade da vida, L&PM Pocket, 2011, Porto Alegre/RS.

SÊNECA, Da Tranquilidade da Alma, L&PM Pocket, 2011, Porto Alegre/RS.

ARISTÓTELES, Metafísica, Edições Loyola, Giovanni Reale, São Paulo. 2011.

ARISTÓTELES, Metafísica, Editora Edipro, São Paulo, segunda edição, 2012.

Versão eletrônica do diálogo platônico “Górgias”, Tradução: Carlos Alberto Nunes

Créditos da digitalização: Membros do grupo de discussão A Acrópolis (Filosofia)Homepage do grupo: http://br.egroups.com/group/acropolis/.



Bibliografia Complementar:

ARISTÓTELES, Poética, Editora Imprensa Nacional, 2003, Brasília/DF.

O Banquete, Editora L&PM Pocket, 2008, Porto Alegre/RS.

JUNG, Carl Gustav, O livro Vermelho, Editora Vozes, 2010, Petrópolis/ RJ.

NIETZSCHE, Friedrich, Assim falava Zaratustra, Editora Vozes, 2011, Petrópolis/RJ.

NIETZSCHE, Friedrich, A Gaia Ciência, Editora Martin Claret, 2011, São Paulo/SP.

CAMPBELL, Joseph, O Poder do Mito, Editora Palas Athena, vigésima oitava edição, 2011, São Paulo/SP.

JUNG, Carl Gustav, Os arquétipos e o inconsciente coletivo, oitava edição, Editora Vozes, 2012, Petrópolis RJ.

LAERTIOS, Diôgenes, Vidas e doutrinas dos filósofos Ilustres, segunda edição, editora UNB, Brasília/DF.



[1] Chegando até agora, como ambos sabemos, estamos aqui não porque somos livres, mas porque não somos livres.
[2] Em sua apologia e no Fédon ele defende/sugere em várias passagens que uma morte digna ou exemplar poderia lhe garantir benesses em uma suposta pós-vida.
[3] Metafísica, Giovanni, volume 2, página 9.
[4] Motor primário seria aquele valor que dá sustentação a todos os outros valores existentes ou conhecidos no mundo.
[5] Não como se conceber obediência sem alteridade, senão não se forma a conexão de submissão.
[6] O Artigo quinto da Constituição diz que todos são iguais.
[7] Segundo a mitologia grega era o Titan que representava o tempo e engolia seus filhos para ter toda a atenção de sua esposa.
[8] Vide a República.
[9] O filósofo conceitua uma superação de si mesmo como um objetivo do homem ideal.
[10] Metafísica, tradução Reale, página 13.
[11] Quando me refiro a força interior é para expressar que o homem é responsável pelos seus atos, ou seja, deus está dentro dele. As premissas psicológicas modernas são nesse sentido.
[12] O filósofo fala em vários de seus livres sobre a necessidade do homem ir além de uma moral social vesga para alcançar um certo poder criativo.
[13] A maior referência  desse novo panorama filosófico é a superação defendida por Nietzsche.
[14] Grego de família monarca que viveu no período de transição entre as monarquias clássicas e a polis de Atenas e hoje é vulgarmente conhecido como Rei que foi morar nas montanhas. Seu legado vai muito além disto.
[15] São os parâmetros que movem o mundo. São o fundamento, a raiz do que vira o feio ou o bonito, a sede ou o saciado, o certo ou errado, o desejado ou repugnante. Estar em seu próprio padrão estético é o estágio ideal do autarquismo, a plena e íntegra adaptação.
[16] Aliás, o único fator absoluto de maneira a ser totalmente confiável nesse mundo é que tudo é relativo, tudo tem alguma espécie de conexão com o observador.

sábado, 6 de julho de 2019

Trivela Brasil



BBB - Bhering, Banimento e Bolsonaro



1.   Introdução

2.   Intervenção Orion

3.   Vinda da Família Real e Consequências do Banimento

4.   Da Fábrica

5.   Conclusão









1.   Introdução

BBB joga luz nas três famílias que causaram distinção na “poética” brasileira. Como diria o conto: Era uma vez uma família que construiu uma fábrica de chocolate no paraíso do mais fantástico planeta do universo, as terras cativantes administradas pelo herdeiro genial da realeza portuguesa.

Importaram ferros da Alemanha para as esquadrias das janelas de maneira a garantir a entrada da luminosidade natural. Uma peça de arte até hoje, toques requintados que de tão excelentes são compatíveis a arquitetura de luxo moderna, apesar de a época da fundação, 1880, o design não ser tão arrojado.

 Rio de janeiro era a capital mais vibrante do planeta, meio ambiente impecável, diversidade cultural, ainda assim com uniformidade linguística, e um imperador visionário e respeitador, verdadeiro oásis num planeta acostumado as guerras.

Nesse Éden surgiu a Bhering na zona portuária no início de um pequeno morro que deu a possibilidade de um quintal em plano alto fazendo da fábrica um espetáculo de localização, vista e comodidade. Escolheu-se dois produtos saudáveis e saborosos para produção industrial, chocolate e café, sendo, então, a fábrica mais refinada do planeta.

Infelizmente a sorte da família Bhering e de todos os demais brasileiros começou a virar nove anos após sua fundação, quando o nosso diligente Imperador foi banido por militares rebeldes em contexto histórico sem explicação até hoje. Certo é que só havia herdeira feminina e que Dom Pedro não via opção confiável a abdicação do trono.

Ocorre que os militares não só questionaram seu trono, o que não era de todo absurdo. O banimento foi medida atroz contra um profissional que se desdobrou para transformar o país num paraíso para todos.

Os militares revoltos estavam sendo influenciados por algum(s) grupo, talvez a casta bancária que começava a existir no planeta notadamente o banco de Nova York que depois virou Citibank. Também tínhamos o fortalecimento de fábricas de cervejas. Donde o consequente aumento da prostituição com o crescimento dessas atividades. O Imperador era muito familiar e, daí, contrário a putaria corporativa, incompatibilidade essa que parece ter sido o estopim ao levante.

Aí cem anos após surge o Mito, na primeira legislatura após a fraude consubstanciada na Constituição de 88, conforme exposto no texto Predador. Se por um lado ele é redentor como líder, por outro sua redenção está condicionada a existência da fraude.

Nesse aspecto é drástico ele ser Presidente pois mesmo sendo pessoa de alta dignidade e ter concorrido com toda legitimidade, poucos recursos e sem apoio de grupos predatórios, pode considerar a realidade do serviço público como sua única percepção. Se isso acontecer ao invés dele devolver o governo ao povo, ao contrário, forçará a imagem de herói, notadamente exterminador de “esquerda”.

Lado outro, junto ao Mito, como seu aliado e em seu partido, foi eleito um descendente da família Real do Império para Deputado Federal, novidade que demonstra que a “vibe” do Mito é resgate a traição militar no banimento. Vale lembrar que institucionalmente os militares são os guerreiros de fronteira, demonstrando que o golpe no Império certamente foi motivado por grupos de brasileiros e americanos insatisfeitos com Dom Pedro, daí a redenção só poderia vir com uma dupla de outsiders tanto na pilotagem do Brasil quanto dos EUA, sendo a única receita limpadora do golpe imperial no inconsciente do povo. Sendo os militares guerreiros do país, um ataque deles contra o próprio governo só pode significar algum tipo de manipulação internacional.

E o que une esse triângulo, Trump, Mito e herdeiros fábrica, ao banimento é uma questão simples porém com viés fraudatório. O imperador, ainda que fosse líder digno e trabalhador não deixava de ser ladrão. Nunca abandonou a cercania real portuguesa, mesmo assim governava país alheio. Mas, era responsável pelas suas decisões e não subjugava o povo brasileiro, sempre houve respeito recíproco apesar do olhar de estrangeiros no mesmo território.

A atual desgraça de moralismo jurídico do Brasil é consequência direta da falta de competência da República em lidar com o legado do Império. É que foi a família Real quem instituiu o judiciário no Brasil, o qual o Imperador já tinha problemas pois já reclamava que a figura do juiz era mais complicada no Brasil que na Europa.

E, no banimento essa estrutura judicial criada foi mantida e o pior os juízes incorporaram o status de reis. Hoje no Brasil é como se todo juiz fosse um Rei e o judiciário o dono do Brasil. É como se o judiciário fosse uma fábrica, os sócios os juízes e o grotesco é que essa fábrica é sustentada pelo dinheiro público, ou seja não precisa ter lucro. O brasil virou titanic cujo único bote salva vidas é a extinção da carreira de juiz e troca por mandato. Profissão de juiz não funciona na República de país multicultural.

Por certo estamos vivenciando o extremo das circunstâncias do banimento. Como diz a música “In The End” do Linkink Park, levamos isso ao máximo até onde é possível ir. E, a grande estampa desse panorama é uma fábrica desativada, mas mantida do jeitinho que parou de funcionar. É essa resistência que une Trump e Bolsonaro a Presidência de seus países para que façam o mesmo: serem Reis dignos, apesar de cada um ter chegado lá por caminhos distintos, ainda que ambas as trilhas estejam contidas na Bhering.

O fato de um ter estrada em órgão públicos e o outro estrada fora dela tem conexão com a traição ao imperador. Não está claro quem influenciou o golpe militar, mas certamente tem a ver com grupos mercantis dos EUA, daí a redenção pelo empresário Trump no norte da América; e a ponta da faca sabemos, os militares brasileiros, explicando o forte militarismo em Bolsonaro. E, serem ambos jogados no governo central de seus países apresenta uma premissa, a de que são pilotos de barcos de nacionalismos e uma conclusão, a nossa civilização é dependente desses pilotos. Aqui temos oposições tanto pela questão da fronteira entre países, quanto na questão de ser governo ou não. Ainda que Trump e Bolsonaro não sejam corruptos, ter cargos públicos é da mesma maneira uma possibilidade de roubar atenção alheia.

Essa é a face sombria deles. Eles são Reis dignos mas acabaram onde acabaram, Presidentes, pois são ladrões de atenção alheia. E ambos trilharam caminhos previsíveis pela experiência acumulada da Bhering provavelmente porque seus fundadores tinham algo de mais evoluído nesse campo. Por isso a resistência de manter o prédio nos mesmos moldes de fechamento, inclusive depois de 30 anos desativada. Essa “insistência” tem algo de super digno e outro de desespero. É que 100 % salvados do politicamente correto não estavam pois teriam projetado a ladroagem, resplandecente hoje em Trump e Bolsonaro, na figura do Imperador, entre 1880 e 1889. Então, se por um lado resistiram porque sentiam estavam mandando bem, por outro não tinham nada melhor a fazer. E nesse conjunto de afluentes todos desaguaram no caos atual.

São evidentes semelhanças entre Trump e Mito. O que os une é a não submissão da véia central da alien tech que convencionou-se chamar de “politicamente correto”. O que os diferencia é um mero detalhe. Um enfrentou o sistema pela iniciativa privada o outro pelo serviço público. E até por isso se encontraram no mesmo local: Presidência da República, a sala de comando do barco o qual todos abordados se submetem, passageiros, marinheiros, cozinheiros, recreadores, enfim toda a gama de cidadão, seja aquele mais ligado a área de segurança ou regulação seja aquele ligado a movimentar a economia de sua embarcação, ou como se diz aqui, país, ou lá, Country.

Não sei dizer quem seria mais capacitado a administrar um país, esses dois ou Dom Pedro II. Certo é que a eleição moderna aglutinando toda população imprime um dinamismo bem diferenciado ao do século retrasado. Trump e Mito são nascidos nesse super dinamismo.

De qualquer forma, não é bom dependermos de uma única pessoa. Só existe um Trump aos EUA e um Bolsonaro ao Brasil. Eles são capazes de alterar completamente os rumos da administração federal como presidentes e nenhum outrem tem essa capacidade nem de longe. Mas isso é bom? Depender de heróis os quais ausentes levariam o governo central a um triste abandono de visão, uma ruína? claro que não... Não podemos creditar responsabilidade absoluta aos administradores públicos.   

  

2.   Intervenção Orion

Para quem leu o roteiro Education sabe que a humanidade é fruto de um laboratório da inteligência de Orion e que se não fosse por eles a terra não teria vida animal. Sabe também que eles vieram construir as pirâmides do Egito e nos manipularam fisicamente para que pudéssemos ser mais parecidos com eles. E, que antes desse contato a vida na terra não tinha destruição, sacrifício ou escravizações e depois já começamos imediatamente extinguindo a mega fauna: mamutes, tigres gigantes dentre outros, em especial os bichos com belos marfins, as primeiras vítimas da ladroagem.

O antes e depois da intervenção Oriana em nosso planeta pode ser explicado da mesma maneira que o Jardim do Éden, tendo o texto A Queda demonstração bastante ilustrativa. Basicamente não existia sofrimento pois não havia medo, já que todos se viam como parte do mesmo plano daí a interação era dinâmica. Então vieram nossos criadores e enquanto construíram as pirâmides sequestraram ou enganaram alguns tribais para nos “ensinarem” a serem cruéis como eles, traduzindo a ideia do dentro ou fora, expressão da edificação das pirâmides cujo propósito é tão simples quanto horrendo: escravização cultural.

Muitos percebem a escravização como exploração. E, não deixa de ser, mas não é sua marca distintiva, fundamental. A escravização é ladroagem, é o ímpeto de sugar as energias do próximo. Essa sucção energética engloba uma questão de percepção, de atenção. Para haver tecnologia tem de haver alguém conectando ela as demais pessoas. Por isso que essa ladroagem é ao mesmo tempo tomar a disposição e também a atenção. A alien tech se pulveriza com enganação, por isso que quem confia em si, como diz Graham Hancock, toma suas próprias decisões, está imune ao projeto oriano. Numa análise sistêmica de dominação da alien tech pode-se avaliar quanto um humano se rendeu a ela na medida em que ele confia no próximo para tomar suas próprias decisões. Não é simples esse critério de análise, pois como a civilização é formada de instituições: prédios, clubes, polícia, empregos, esportes, então a depender do grau de contaminação que permeia esses lugares a questão do que é confiar fica com a análise volatilizada.

Certo é que todo humano é atropelado pelo projeto de poder de Orion desde a construção das pirâmides pois estamos conectados pela vivência no planeta ainda que cada qual de uma maneira. Daí não existe receita única a como individualmente se deve lutar contra isso. E, vivemos em intenso conflito pois a separação biológica que implica na reprodução sexuada é uma característica derivada da cosmologia de Orion. Nosso planeta não foi feito para dar guarida a todo embate que implica essa vivência. A vida aqui é muito regular e tranquila como exposto no roteiro Education. Por isso que estamos em constante guerra entre nós mesmos, entre nós e o meio ambiente e potencialmente entre nós e Orion. Como diriam os ingleses, the real nightmare is to be awaken...

 Em seu objetivo exploratório, a alien tech depende de credibilidade. Sem ela não há margem para a ladroagem. Possivelmente esse é o motivo que os orianos não deixaram nenhum vestígio da civilização deles em nosso planeta. Construíram as pirâmides com pedras, não deixaram escritos a não ser os feitos pelos tribais, não esqueceram nenhuma ferramenta. Ainda que seja óbvio que a construção não foi de humanos, eles fizeram questão de não deixar nenhuma prova disso, visando, assim, afastar algum olhar desconfiado dos humanos em face de outros planetas. Se soubéssemos que aliens estiveram aqui teríamos que deliberar sobre isso. E tal deliberação poderia ser defensiva em face deles e o pior sobre a tech deles, postura que dificultaria a aceitação da cultura estrangeira como nossa. Eles querem olhar pra nós, mas não aceitam a recíproca. Essa é a prova definitiva de quanto hostil os orions são. E nem se caia na ingenuidade de crer que existam espécies lá melhores que outras. Sim, existem, mas mesmo as melhores são hostis como espécie a nós. Afinal somos criatura com propósito específico. Claro, não se está dando direito de defesa. E se déssemos, diriam o que? Ahh, não deixamos ferramentas porque queríamos que vocês construíssem sua própria evolução. Ahh, tá, então porque manipularam geneticamente alguns. Ahhh, nós melhoramos vcs. In the end, tudo gira em torno do roteiro education: eles só nos “causaram” porque a vida deles estava falida. E, se assim ocorria para que criar mais vida? Na melhor das hipóteses somos fruto do desespero alheio. Por isso nada devemos a Orion!

Por fim, vale registrar que o povo colonizado nas pirâmides foi o judeu. Eles os ensinaram a transmitir conhecimento a seus herdeiros, uma maneira de repetir nas gerações seguintes a ativação incluída no DNA que permite ao povo semita servir de plataforma a tecnologia. Sem nenhum judeu subjulgado socialmente a execução da alien tech fica inativa. Não sei exatamente que alteração genética foi implantada, do que se sabe atualmente o povo judeu tem tendência muito maior que o normal ao sangue O. Porém isso é mero reflexo, por certo algo eminentemente mental se destaca entre judeus e o restante da humanidade. Na natureza virgem essa diferença não tem relevância, mas onde há objetos construídos pelo uso de tech parece que o judeu exerce uma influência maior que o não judeu. Isso é visível, por exemplo comparando uma cidade e uma tribo. Na tribo a modificação dos objetos não assume formas diferentes de sua natureza. As casas de madeira e palha, panelas de barro, arco e flecha são objetos que não escondem foram tirados da natureza. Já na civilização existe a transformação dos elementos de sua composição natural.

A estratégia da alien tech é mesclar uma condição biológica, a separação entre macho e fêmea, com uma condição tecnológica, o dentro e fora do sistema. Ou seja, pegam uma oposição natural, a sexualidade, e a jogam no campo das oposições sociais. Explicando praticamente, o povo manipulado, o judeu, desde então se viu como povo diferente dos demais. Depois veio a primeira oposição nacionalista, Atlântida e por aí vivenciamos o caos atual onde todo embate social pode gerar uma oposição. E diga-se de passagem, se há santos são poucos, pois tem quem se sinta confortável na posição de explorador e também tem quem adore se vitimizar do ataque sofrido, como se fosse incurável.

E, ainda temos o supra sumo da perversidade, o viés segregador da alien tech potencializado ao máximo, o tal do “politicamente correto”. Aqui aparece a figura do intermediário, o qual explica como proceder. Por isso o alienado no politicamente correto não só está perdido, nem sabe onde quer ir. Além de tomado pelos contornos sociais da escravização cultural ainda tem um líder que o engana. É que o politicamente correto não existe de fato, pois ou temos alguém ditando o que ele seja, ou temos alguém se aproveitando de alguma situação fraudatória. Se pararmos para pensar até a expressão é um contra senso. Se trata do extremo da submissão da terra a Orion onde cria-se uma corrente em que a oposição é abraça-la ou não. Ou seja, todos vendem a alma em troca de alguma sensação de eternidade que a alien tech proporciona e depois do rabo devidamente preso essa pessoa em lavagem cerebral atua como um soldadinho impondo o politicamente correto a todos sob pena de achincalhamento, golpe ou qualquer ataque que tanto esculhambe com a “ovelha desgarrada” quanto sirva de exemplo as demais ovelhas que entregar o rabo ao politicamente correto é necessário. O auge da perversidade social.



3.   Vinda da Família Real e Consequências do Banimento



A realeza européia cansada de tanta intriga e desgraça em seu meio resolveu apostar no Brasil another style of life. E, após disputas com espanhóis, holandeses e franceses, a Corte Portuguesa resolveu se aventurar por aqui. Dom João começou numa função bem relevante apesar de pouco registrada historicamente, com vários expedicionários no campo de pesquisa e reconhecimento. Provavelmente o maior legado desse tempo ainda de pé é o Jardim Botânico, fundado em 1808.

Depois Dom Pedro I e sua Imperatriz, mulher experiente nas cortes europeias, deram início ao império que depois foi legado ao filho. Nessa época a França estava traumatizada pelas atrocidades que ocorreram ao seu Rei e vários grupos que o rodeavam num movimento chamado equivocadamente de Revolução.

Foram muitos acontecimentos, mas revolução não foi um deles. Foi um momento deprimente em que a bela trilogia igualdade, liberdade e fraternidade foi dita só para manipular os outros. É triste ler em alguns livros de história que a “revolução francesa” SIC ensinou isso para a humanidade. Primeiro que isso não é novidade nenhuma. Pelo contrário, qualquer tribal sabe intuitivamente o que isso significa. Segundo que nesse período nada disso estava permeando a atividade das pessoas na França.

O fato é que após a queda de Robespierre, o padrinho das atrocidades, os franceses em trauma das barbaridades deliberaram maneiras de diminuir institucionalmente a influência da Corte na sociedade. A novidade que Napoleão apresentou ao mundo foi o primeiro banco do planeta cujo objetivo foi algo do tipo diluir ou transferir o poder financeiro do público, governo, ao privado, pulverizando questões financeiras entre cidadãos. Esse banco ultrapassou o limite cultural da época de mero emissor para ser também de fomento.

Napoleão deve ter pensado em unir o útil ao agradável. Útil porque a economia da França estava “enforcada” e inflacionada, daí imprimir dinamismo a área financeira foi uma ideia brilhante. Agradável porque ao descentralizar poderio financeiro ele se esquivaria da responsabilidade nessa área.

Menos de uma década após Dom João fundou o Banco do Brasil nos mesmos moldes do Banco “napoleônico” aproveitando a ideia de imprimir dinamismo as questões financeiras do país. Estava certíssimo pois a forte estrutura familiar portuguesa é bastante compatível a um banco estatal. É que mitologicamente a ideia de fundo do banco é a transferência do pátrio poder estatal para a confiança no dinheiro. É como o álcool. É bom na companhia adequada e sem exagero, mas se o cidadão crer que o dinheiro compra tudo descobrirá cedo ou tarde que não é bem assim.

A autêntica constatação é que a frase, o Brasil é o país do futuro está errada. O Brasil é o país do passado. Quando Dom Pedro foi banido estávamos vivenciando o mais próximo do Éden perdido na construção das pirâmides. Nesse período o Brasil foi alçado a capital cultural do Planeta com excelente qualidade de vida. Tudo funcionava bem, até o abastecimento de água da época era melhor do que o atual, valendo nesse ponto uma questão curiosa. O que hoje é a reserva do Tinguá hospeda a última grande obra de Dom Pedro II, o sistema de abastecimento da cidade. Tristemente ela virou uma reserva com entrada negada por razões que ninguém explica e com todo o maquinário e tubulação abandonados. Essa reserva possui água cristalina e com ótima potabilidade, incomparavelmente melhor do que o atual abastecimento da cidade. É uma atrocidade bizarra não estar funcionando e ainda ter seu acesso ao público visitante proibida.

Quanto a pilotagem do barco, função do líder da nação, a alien tech sendo um mecanismo de interação permeia o que chamamos de intermediação. Os reis tem que lidar com isso pois como comandantes são aqueles que sofrem mais imediatamente as dores dessa influência. Dom Pedro II, por exemplo, podia nem acreditar que Aliens existam, mas ainda assim tinha que se virar com a alien tech. Ele fez o melhor possível, o mais digno que enxergou: aceitou um casamento arranjado. Foi uma maneira de contemplar que o próximo é do jeito que é. Dessa maneira ele se imunizou dos piores assédios da alien tech e pode se dedicar a administrar o país com ombridade. Enquanto ele manteve sob controle o sofrimento da divisão sexual, tanto internamente em seu psiquismo quanto socialmente mantendo seu casamento como um evento exclusivamente da corte, pôde ter discernimento para enxergar um povo livre e feliz pilotando esse barco chamado Brasil.

Comparativamente esse modelo que rolou no Brasil com uma família real cuidando do governo central, hoje chamado de federal, não é novidade no planeta. Quem vai a países asiáticos vê citações antigas de grande vala entre reinado e povo; e um caso bastante parecido ao Brasil é a Coréia do Sul onde as construções que separavam a família real da Plebe são lindíssimas, parecem palacetes divinamente retocado feitos durante centenas de anos. Vale registrar também em relação a Coréia uma simples “curiosidade”. Se fizessem um buraco perpendicular no chão no Rio de Janeiro não sairíamos no Japão como o ditado popular, mas em Seul.

Quiça o parlamentarismo seja mais eficiente principalmente ao governo central pois a troca do governante passa a ser regra e não exceção. No Brasil esse problema é mais intenso que em outros lugares ou simplesmente ele se torne mais evidente pelas peculiaridades locais, multiculturalismo. O fato é que o povo brasileiro necessita se ver como amigo do administrador. Ou senão uma maneira de conspirar contra ele. Se nossa sociedade não superar esse complexo de inferioridade ou como coloquei em minha tese, esse parricídio, viveremos em eterno golpismo. É que o tal acordo que todos querem fazer com o governo é a lei da vantagem por um lado e de outro um princípio da institucionalização do bode expiatório, pois se tem alguém “se dando bem” tem alguém levando bolada nas costas.



4.   Da Fábrica



A Fábrica foi inaugurada em 1880 no auge da qualidade de vida que já pairou no planeta na capital do Brasil fazendo brilhar um pequeno morro em área encrustada a Baia Guanabara.

Com arquitetura ultra moderna e delicada, uma verdadeira obra prima. Seis andares com um terraço belíssimo e vista ao Porto Maravilha. O Deck do elevador nos leva a uma casinha no terraço no melhor estilo de entrada de festa. Em cima dessa casinha o símbolo da Bhering de forma pomposa lembrando o que os desenhos da fábrica da ACME tem de melhor. Como ela fica junto do morrinho o primeiro andar tem os fundos fechados. E no segundo andar resplandece um jeitoso quintal que se prolonga no morro com o charme da discrição de uma área aberta interna junto a natureza. Também aqui mais uma lembrança da ACME, uma alta chaminé que causa curiosidade pelo tamanho, pois desconheço que a produção de café ou chocolate demande tanta altura para exaustão.

Um ponto que valeria um livro inteiro para debater é o pavilhão principal que fica no segundo andar. Em seu centro tem um vão até o quinto andar, exatamente como se nota em filmes americanos nos presídios. Estranho, no entanto, é que em 1880 não haviam presídios, somente pequenas cadeias. Disso resulta duas indagações fundamentais.

A primeira é porque a arquitetura da fábrica veio a inspirar presídios?

E a segunda é porque “a sociedade do julgamento” bombou depois dela e persistindo até agora criando a figura do marginal e o colocando para cumprir longas penas em grandes presídios, o fenômeno do encarceramento em massa?

Ainda que as duas perguntas se complementem vale abordar separadamente.

O segundo andar tem uma passagem de ponta a ponta e no centro o teto é aberto indo até o último andar. Algumas pessoas que reconhecem essa semelhança, falam assustadas ou comicamente: ihhh igual presídio. Esses passantes que ficam com uma má impressão porque se lembram do presídio não se tocam na hora que quando ela foi construída não tinham presídios. O fato é que quem se assusta com isso deixa de reconhecer toda a beleza integrativa que esse vão interno trás, inclusive porque a fábrica tem as janelas com as belas esquadrilhas.

Então, porquê os presídios seguiram essa estrutura? Tudo na fábrica é dotado de carinho e inovação. A começar pelo local, morrinho próximo ao centro mas numa área sem construções relevantes a época. Curvas arrojadas da fundação dando a fábrica compatibilidade a uma construção de ponta atual, mesmo passados 140 anos com fortes avanços na engenharia nesse período. Cada detalhe nos corredores diferenciando todos andares entre si, mas sem perder a funcionalidade, pelo contrário, a aprimorando.

Especificamente esse vão interno, creio que a ideia foi de dar integração entre todos andares facilitando a comunicação social, só que essa ideia não parece ser bem-vinda na ala principal de um presídio...

Nessa incógnita só me resta concluir que o banimento da família Real criou um vaco cultural que contaminou todo o planeta. A ala central que seria uma comunicação em nível vertical unindo as várias camadas hierárquicas da fábrica teve sua potencialidade prejudicada pela bagunça no governo após a brutalidade face seu governador máximo, o banimento. Tal traição atinge em cheio essa sociabilidade vertical que na fábrica é expressa pela comunicação central entre andares.

Por mais que a iniciativa privada, expressa pelos donos da fábrica, se esforce em fazer o que lhe compete, estando cercada pela República administrada por pessoas corruptas ou mal intencionadas ou simplesmente mal preparadas fica complicado a se creditar afeto vertical em toda sua potencialidade.

Nesse diapasão fica evidente as duas razões da semelhança, uma que o encarceramento em massa nada mais é do que o sinal concreto da falência da sociedade; outra que o lado sombrio da fábrica é a verticalidade a qual sempre carrega como fundamento a hereditariedade, o que faz sentido pois o Imperador não tinha herdeiros aptos a passar o trono, um dos motivos que estimularam seus carrascos a dar o golpe.

Mas vale fazer uma pequena ressalva. Culpar o próximo é sempre fácil em especial o governo. Por certo algo interno na hereditariedade dos donos da firma deve ter espelhado a questão sofrida pelo Imperador em 1889. Porém a fábrica resistiu e se reinventou, tendo marcado para o dia 06 de julho de 2019, daqui uma semana, completa festa julina com fogueira. Já o governo central, hoje chamado de federal, vive um caos total em especial na área de julgamento criminal com repercussão em questões eleitorais.

Já a segunda indagação é a ponta do iceberg de algo muito errado que aconteceu nos últimos cem anos, quiça esse encarceramento em massa seja o pior fenômeno: o auge do ataque humano, mais horrível até do que explodir bombas nucleares no telhado do inimigo.

A sociedade do julgamento nada mais é do que a crucificação ad eternum do bode expiatório. A razão disso é evidente: humanidade impondo a alien tech entre si, ou seja, humanos escravizando culturalmente outros humanos. Muito provavelmente os orions já esperavam que isso fosse acontecer, talvez seja até o mecanismo principal da alien tech com o fim de facilitar eventual intervenção por parte deles, ou possivelmente coisa bem mais sinistra. Mas nem vale a pena especular sobre isso. Basta nos imunizar. Como já dito a alien tech é nociva ao humano e assim basta que seja contida, como evitar pisar numa cobra coral, principalmente descalço. Quanto menos se especular sobre ela melhor, basta saber que ao contrário do que os orions gostariam que acreditássemos, ela não salva nada! Pelo contrário, escravisa, contamina quem dela dependa. Crendo nisso já se está suficientemente imunizado.

Então, qual a relação entre a Bhering e a marginalização do criminoso? Se existe uma palavra a marcar o que os herdeiros estão fazendo na fábrica até hoje é “resistência”. Nunca vi nada sequer parecido... Hoje ela está do jeito que foi desativada nos anos 80, com maquinários de produção do chocolate, belo elevador semi-panorâmico, plaquinhas de orientação, banheiros. Isso espanta até pela questão fiscal e de divisão de bens entre herdeiros por tanto tempo.

Só existe uma explicação: aquela fábrica representa algo maior que tudo isso, demonstrando que a vida digna é uma eterna luta, não existem saídas fáceis ou recomendáveis. Essa postura dos herdeiros é o contrário da sociedade julgadora, aquela onde juízes assumem a figura de vingadores e segregam os certos dos errados, pondo esses em presídios para que sirvam de exemplos a todos, fomentando assim humanos vivendo em função do medo pela subserviência ao pensamento dominante, o qual em última análise acaba sendo a escravização cultural Orion.

Daí, os presídios assumirem semelhança ao vão central rememorando a humanidade em plena vibração ante a sinergia da fábrica com a excelência do imperador por 9 anos, período entre a fundação dela e o banimento dele. Essa lembrança perdurou mesmo após os militares golpearem todo esse Éden que resplandecia, e perdura até hoje em todo o planeta. É como se os excluídos socialmente fossem não os culpados mas sim as vítimas do sistema perverso, daí eles ficarem vivenciando uma espécie de vibe sombria da fábrica enquanto nos presídios.

É que por mais que a vibe seja sombria é ainda menos ruim do que a alienação a alien tech: humanos escravizando culturalmente outros humanos. Antes receber a vibe sombria de um período funcional e harmônico do que o entreguismo ao dominó responsável pela destruição dessa vivência.

Por mais esquisito soe, vivenciamos em 2019 as memórias das pessoas que tentavam construir algo digno em conflito com a dos canalhas que se entregaram a serviço da alien tech para atacar esse esforço. Ninguém é santo nessa estória, mas sem deglutirmos esse lance o encarceramento em massa continuará sendo a pedra angular do sistema criminal do planeta. Temos que sair da mentalidade da segregação localizada no judiciário. Tal atitude só nos leva a inchar a sociedade de juízes na expectativa de receberem a expectativa de salvadores da pátria. Ledo engano, como explicado no texto A Queda carreira de juízes só tem a pretensão de salvarem a si próprios. E assim a segregação cria veias cada vez mais contundentes, pois além da segregação criminal entre criminoso e inocente ainda teremos a social, entre juízes, e seus amigos, face os restantes. Tal panorama é a mesma estória do Rei corrupto só que muito, muito pior, pois o Rei é um só. E no Brasil até justiça do trabalho.

Outra questão da fábrica que salta curiosidade pela modernidade são as fachadas de janelas. Naquela época não havia construções em que as paredes eram todas transparentes. Foram usadas esquadrias de metais importadas da Alemanha para garantir máximo de luminosidade externa. O ferro é de excelente qualidade, inteiro até hoje, bem diferente dos materiais atuais. Essa comunicação transparente entre externo e interno é sinal de robustez e dignidade evitando a malícia de Orion achar que pode nos ver e nos enquadrar, mas não aceitando a recíproca.

E qual seria a relação do Mito com a fábrica?

Duas questões despontam, uma a relação pública institucional do Imperador ter sofrido golpe militar e o Mito ter nascido profissionalmente nessa área. Trata-se de uma relação humana intermediada por oposição, a propriedade privada que ora será dissecada. Trump é comerciante, já o Mito nunca se aventurou nessa área. A fábrica é a finesse da propriedade privada, tendo em vista que o primeiro estágio da segregação institucional é a propriedade privada da residência, depois teríamos a propriedade privada de um ofício mais simples, como um marceneiro. Seu último estágio é uma fábrica, onde sócios se unem para construírem num local privado um ponto meramente comercial que acaba criando uma nova oposição, a da vida pessoal face a vida profissional.

O que teria de relevante nessa complexa oposição, pessoal face profissional? Primeiramente vale pontuar que se trata de uma robusta novidade no campo das oposições. Aqui não se está opondo classes financeiras, classes sociais de quaisquer tipos, ou inclusive a mais primordial, macho e fêmea, que também envolve pessoas distintas, apesar da causa biológica. Nesse caso estamos diante de uma oposição dentro da mesma pessoa e o mais intrigante e forte, tanto pode acontecer num homem ou numa mulher sem nenhuma distinção.

Caminhos tão distintos sob certo ângulo, porém em ângulo distópico tão idênticos mostram que Trump, Bolsonaro e os herdeiros da Fábrica estão unidos sob essa perspectiva da oposição pessoal/profissional. E, a pedra angular desse “triângulo amoroso” consta na Mitologia de Teseu, mas precisamente o pai de sua amada natural de Atlântida, o Reinado de Minos de Creta.

Quando Creta resolveu eleger um Rei para cuidar de todos criou a primeira propriedade privada da civilização gerando a oposição nosso reinado face o resto da humanidade. Atlântida pode não ter ido para frente, dizem houve catástrofe natural, dizem simplesmente as intrigas implodiram a civilização que pretendia nascer. Mas Teseu aprendeu essa estrutura social e deu continuidade a ela em Atenas, provavelmente o abandono de Ariadna colou nele o que sua liderança tinha de pior transformando um homem forte num burocrata e impondo a seu reinado um aspecto sombrio, apesar de toda potencialidade.

Trump quando pôde optou por ser o único dono das empresas, assim como Bolsonaro que tanto no exército ou nos cargos eleitorais sempre optou por decisões individuais. Isso demonstra que são autênticos Reis, decidindo com dignidade seus próprios rumos. Já na fábrica houve uma sociedade ainda que a família Bhering fosse o principal dono. Porém como a fábrica é o supra sumo da propriedade privada pode-se considerar todos os donos como Reis pois todos se responsabilizam pela decisão tomada e ninguém questiona que a decisão é tomada em nome da fábrica. É uma baita diferença na prática diluindo os efeitos nocivos da alien tech transformando-a num educado e satisfeito gatinho.



5.   Conclusão



Vivemos uma hiper-realidade agindo sobre uma realidade.

A realidade humana nativa consiste na interação biológica entre o humano e o meio ambiente, aí considerado outros animais e vegetais e também a integração com o planeta seja em suas características internas tais como meteorologia e adaptação; ou externas, tais como a cosmologia do planeta, sua relação noite ou dia, e interação com demais corpos celestes.

Já a hiper-realidade é a submissão à cultura de Orion a partir da “educação” que o povo semita sofreu nas pirâmides. O que se pode afirmar é que essa hiper-realidade é nociva aos habitantes do nosso planeta. Com ela alguém sempre tem que pagar o pato, ser crucificado ou enganado. A aniquilação da mega fauna foi o primeiro mas infelizmente não o último exemplo. Pena que Orion não tá nem aí. Para eles os fins justificam os meios, como exposto no roteiro Education. Aniquilaram os dinossauros porque não aceitariam a hiper-realidade.

Mas existe remédio contra ela. A imunização de seus efeitos deletérios são os ensinamentos de Echart Tolle. Quanto mais se vive no presente momento menos se tem medo ou esperança. E sem esse estado de proteção ou ânsia, não pode a alien tech apropriar a realidade, ou seja, sugar a realidade para a hiper-realidade.

Na prática é não creditar a solução dos próprios problemas na confiança. É que sem estar socialmente enganado não há como se ter medo ou esperança. Em suma, só confia no próximo quem está de alguma maneira manipulado, ainda que nem o manipulador saiba que está manipulando, como ocorre no politicamente correto. E essa manipulação pautada pela confiança não deve existir em nenhum tipo de relação, nem quando há protagonismo do governo.

Se for estabelecida uma maneira de rápida troca do presidente pelo congresso provavelmente essa sistemática será enfraquecida, pois sem a figura do grande líder que todos suplicam benesses ou tentam enganar, sem esse líder ter força ou tempo para intervir nesses sentidos diante de um iminente controle por um colegiado independente, congresso, ficará mais profissionalizado o governo federal, dispensando a necessidade de heróis como Mito ou Trump, posto que ainda que eles sejam “do bem”, não podemos nos dar ao luxo de pedir que eles queiram lutar em favor de todos. Não se pode exigir isso de ninguém. Foi por isso que Atlântida ruiu e todos os demais reinados posteriores.

Mas em linhas gerais a frase do ateniense Sócrates é bastante útil: tudo que sei é que nada sei. De fato, se vivemos em função de não sermos feitos de otário então para que existimos? Só para lutarmos contra uma realidade escrota sem nenhum benefício ao final. Realmente não faz sentido.

Porém vale precisar melhor o conteúdo da frase, até porque quem acha que de nada sabe, sabe de algo, ainda que nilisticamente.





“Tudo que sei é o presente momento ainda que ele não me diga nada além do simples embate pela sobrevivência.”



Em 05 de julho de 2019

felipesfontes.blogspot.com




domingo, 9 de junho de 2019

Dupla Cidadania Intra-Territorial


Dupla Cidadania



Witzel foi acusado por alguns de "louco" ao desde a posse ordenar abate de traficantes, milicianos ou afins armados, em especial de fuzis em áreas por eles dominados.

Nessa semana o caldo engrossou e já tão acusando de sociopata, mesmo sem terem PHD em psiquiatria para afirmar. Tal parecer, se vista a literatura técnica sobre o assunto somente é atribuído a pessoas com desvio de comportamento a nível de genocidas no próprio povo a título de aumento de popularidade pela via do medo.

Pois bem, a mitologia pontua que no primeiro reinado conhecido dotado de relevante aplicação tecnológica, Atlântida, criou-se duas características distintivas ao vilarejo tradicional. Um Rei que era reconhecido por todos como autoridade inafastável e em contrapartida sua devoção “full time” aos súditos. E, a presença de muros para delimitar fronteiras entre eles próprios e entre eles e o restante da humanidade.

Daí, evoluímos a vivencia carioca com duas cidadanias distintas coexistindo no mesmo território, o tal do asfalto e a tal da favela.

A favela cresce a margem da urbanização municipal, uma manobra desesperada de quem não tem onde morar ou não tem emprego onde morava antes. A partir daí, o favelado tem que “se virar” pois não paga IPTU mas também fica excluído de alguns serviços. Porém a situação que no Rio sempre foi o centro das polêmicas “brabas” nesse tópico é a segurança.

A PM ou a guarda municipal institucionalmente fazem vista grossa do que acontece na favela, a não ser em interesses pessoais ou no caso marginal a sua função, as milícias. Já funciona assim há décadas, não havendo registro oficial de quando isso começou até porque todas as Secretarias de Segurança Pública sempre negaram ignorar esse território.

Aí aparece o Witzel e resolve enfrentar com toda a coragem essa dupla cidadania da maneira que o Código Penal Brasileiro orienta.

A dúvida é: esse “gap” de décadas de omissão deve ser assim abordado? Muito difícil responder. A Análise histórica não ajuda suficiente porque essa dupla cidadania em mesmo território não possui precedentes, seja nas primeiras civilizações ou depois. 

Curiosíssimo, diga-se de passagem, é que a Relação o favelado carioca estabelece com sua autoridade local é um vínculo mais autêntico do que do cidadão “asfaltense” com sua PM. Em linhas gerais pode-se afirmar isso, por mais estranho que possa parecer. Meu palpite como estudioso de mitologia comparada é que algo mais forte nascer no torto é sinal de que toda a sociedade vive de mentirinha notadamente por alguma ladroagem oculta ocorrente ou fundante. 

Quanto a saída institucional, a Constituição é taxada por profissionais do direito de norma estruturante da sociedade. Ledo engano, pois o que funda uma sociedade é a existência de três ou mais pessoas convivendo. A Constituição é quando muito um pacto que pode ser quebrado a qualquer instante, uma intermediação precária entre pessoas. De qualquer forma seria bom se a CR de 88 explicasse o que fazer nesse caso, mas não o faz nem de muito longe por uma simples razão: ela não sabe do que se trata a dupla cidadania intraterritorial do Rio de Janeiro. Poderia até ter tido a franqueza de entrar nesse tema pois em 88 as favelas eram dominadas pelos traficantes, mas como não o fez só nos resta ignorá-la num belo cântico aos mortos para tentar encontrar uma solução eficiente ao caos.

Ainda que se entenda que abater traficante ou afim por Sniper é para tentar impor um mínimo de ordem evitando assim confronto com policiais, tal medida é indevida por ser predatória, incendiante da relação governo/cidadão. E também não há consistência no ato posto que a morte de um ou outro ainda que possa inibir essas exibições não tem o potencial de resolver o problema. Aliás, está até em desuso vê-los ostentando fuzis pela favela, já que os milicianos estão ocupando espaços pois ofertam mais comércio. Se fosse no Rio de 88 talvez esse abate poderia até ter um impacto relevante na retomada dessas áreas pelo governo institucional, mas hoje em dia não resolverá o problema.

Já na hipótese de contato visual entre ambos, o policial e o traficante/afim, aí sim caso haja o tiro o policial fique isento de responder pelo ato, seja porque sua vida estaria em risco, seja pela inexigibilidade de conduta diversa pois não é digno esperar que um policial armado “peça benção” para traficante, miliciano ou afins.

Porém, dada a segregação entre os dois mundos, especificamente quanto a segurança pública, o perigo é o governo fomentar velho oeste americano, só que com menos dignidade porque lá nenhum dos duelantes teria apoio ou pior ainda seria o próprio governo...

Solidariedade ao Witzel por ir além de seus antecessores tentando enfrentar um problema aparentemente insolucionável !?! Como diz o Prefeito Crivela, “o Rio é uma esculhambação total”. Certo é que o Rio só permanece unido como cidade por falta de outra opção...